O futuro em boas mãos

Como estamos vendo nos noticiários, a campanha eleitoral já começou. Acho um pouco cedo, mas o pessoal fica nervoso com a disputa e a ansiedade parece ser geral. A política, o governo e a administração do Estado são das mais nobres atividades a que o cidadão pode entregar-se, pois se trata de um admirável exercício de altruísmo, amor à coletividade e ao semelhante, de nobre renúncia a interesses subalternos e vantagens indevidas e até mesmo a projetos pessoais. O homem público epitoma a virtude, não no sentido piegas que estamos acostumados a associar a esta palavra, mas na dedicação resoluta e firme ao bem público e às aspirações e direitos dos governados, numa vida cuja maior recompensa será o zeloso cumprimento dessa missão e nada mais. E o Brasil está coalhado de gente disposta a sacrifícios extremos para servir ao país e levá-lo a um futuro de prosperidade, justiça, segurança e felicidade.

João Ubaldo Ribeiro, O Estado de S.Paulo

03 Março 2013 | 02h09

Para canalizar tamanho empenho cívico, dispomos de mais ou menos 50 partidos. O partido político, como sabemos, destina-se a formular projetos e objetivos para a condução da sociedade, aglutinando visões do mundo, ideologias ou interesses. Isoladamente, o cidadão pode muito pouco. O partido, por conseguinte, é indispensável para a ação política. Por meio deles, aqueles que pensam de forma semelhante conseguem juntar seus esforços para chegar ao poder e daí transformar em ações concretas seu ideário. Assim, cada partido tem um perfil claro e definido e o cidadão deve escolher entre eles o que mais se aproxima de seus interesses ou pontos de vista legítimos.

No Brasil, os políticos são virtuosos, ou procuram ser virtuosos? Engabelados pelo noticiário leviano, venal, deturpador, difamador, caluniador, injurioso e irresponsável de praticamente todos os veículos de comunicação, muitos de nós diriam que não. Afinal, todos os dias mais um capadócio público é exposto, mais uma quadrilha é desmantelada, mais um ladrão se revela e um incompetente se evidencia. Solerte imprensa, antro de patifes, súcia de mentirosos. Pois basta livrar nossa visão dessa fumaça maledicente para logo vermos que a realidade desmente os detratores. Que a política e o poder demandam extraordinários sacrifícios é afirmação universal, postulado nunca discutido. Entretanto, nossos políticos jamais querem deixar o poder ou abandonar cargos de influência, estão dispostos a arrostar indefinidamente esses sacrifícios penosíssimos. Negar que isso é virtude, só com muita má vontade.

Quanto aos partidos, é comum a opinião, igualmente desinformada ou provocada por uma visão superficial das coisas, segundo a qual, com exceção de um excêntrico ou outro, não há real diferença entre eles. Com efeito, a propaganda de todos eles sempre apregoa as mesmas coisas, que qualquer um de nós pode repetir, sem ter que puxar pela memória ou lembrar partido nenhum. Os pontos omnipresentes são desenvolvimento, educação e saúde para todos, combate às desigualdades sociais e à exclusão, investimentos em habitação e saneamento básico e assim por diante. Basta ouvir um para ouvir todos, às vezes parece que usam o mesmo redator.

É bem possível. Mas aí é que está a nossa originalidade. Observem que eles dizem o que querem fazer - e, afinal, todo mundo concorda com esses pontos básicos - mas não como pretendem fazer o que querem. Esse "como" é que é o pulo do gato. Os cínicos, os pessimistas e os de cérebro lavado pela imprensa vil acham que isso quer dizer que eles não sabem como fazer nada daquilo, nem estão querendo fazer nada além de eleger-se. Má vontade outra vez. A malícia do brasileiro, a nossa malandragem congênita, nosso balanço e nosso veneno é que estão por trás dessa prática, não é ignorância, falta de escrúpulos ou despreparo. Eles não dizem como vão fazer todas aquelas coisas fabulosas para que os concorrentes não os copiem, não vão abrir o jogo para o adversário, ele que se vire com as soluções dele mesmo.

Os partidos também podem ser vistos em função da divisão tradicional entre esquerda, direita e centro. Creio que, em todos os países onde há partidos políticos livres, eles são, ainda que sem muito rigor, enquadráveis nessa classificação. Aqui, porém, se deve de novo chamar a atenção para a nossa originalidade, a começar por termos partidos que se classificam como nem de direita, nem de esquerda, nem de centro. "Não estamos na direita, nem na esquerda, nem no centro", talvez diga o folheto de um partido desses. "Estamos na nossa." E parece que está surgindo um partido que nega ser um partido, de forma que a situação requer a adoção de uma nova metodologia analítica.

Enquanto ela não é formulada, tudo indica que aqui, atualmente, a esquerda é constituída pelos partidos que estão no poder, ou os apoiam. Deve-se ter cuidado para evitar confusões, porque o principal partido de esquerda, o PT, tem como figura principal um político que afirmou nem ser, nem nunca ter sido, de esquerda. O presidente do Senado é de esquerda, o ex-presidente também. Aliás, o PMDB é de esquerda. Qualquer crítico do governo é de direita. E, entre nós, não é de bom tom ser de direita, pois o mais chique sempre foi ser de esquerda. Não é um panorama simples, até porque existe a complicação adicional de que os envolvidos não sabem a diferença entre esquerda e direita e costumam gaguejar um pouco, quando solicitados a explicá-la.

É neste quadro que devemos ver a disputa que já se iniciou. São nossos virtuosos homens públicos se oferecendo para sofrer e martirizar-se pelo serviço à coletividade, sem visar a vantagens e proveito pessoal; são nossos partidos formulando projetos claros, detalhados e viáveis para o nosso futuro; são nossos votos conscientes e ponderados que vão escolher entre tantos caminhos promissores. Não sei o que mais podemos querer, qual é a queixa?

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