Bel Pedrosa/Divulgação
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O futebol como arte da vida

Em ‘O Drible’, Sérgio Rodrigues usa o esporte para narrar um drama familiar marcado por segredos sombrios

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

15 Novembro 2013 | 19h15

Aos 80 anos, Murilo Filho, um cronista esportivo desenganado pelos médicos, resolve se reaproximar do filho, Neto, com quem está brigado há um quarto de século. O caminho é a lembrança de histórias saborosas de craques do passado, especialmente de Peralvo, extraordinário jogador dos anos 1960, dotado de poderes sobrenaturais e que só não foi maior que Pelé por conta de um fim trágico.

Em O Drible, Sérgio Rodrigues consegue a proeza de tratar de um tema raro na literatura brasileira (o futebol) por meio de um drama familiar que espelha ainda aspectos tenebrosos da ditadura militar. Escritor habilidoso, Rodrigues já oferece um belo exemplo no primeiro capítulo, no qual o pai acompanha, ao lado do filho, um lance icônico: o gol não marcado por Pelé contra o Uruguai na Copa de 1970, depois de um sensacional drible de corpo no goleiro Mazurkiewicz.

O livro, na verdade, foi gestado durante muitos anos. “Escrevi um conto chamado Peralvo, sobre esse jogador com poderes sobrenaturais, que deveria ter saído no meu primeiro livro, O Homem que Matou o Escritor, em 2000”, conta Rodrigues. “Mas, na última hora, achei que o conto rendia mais e resolvi tirá-lo do livro. E, por 18 anos, fiquei tentando engordar essa história. A cada livro que eu lançava, voltava a essa história – virou uma obsessão. Até que, no ano passado, eu me obriguei a escrever, pois já me fazia mal.”

Pai e filho se alternam como narradores, o que exigiu uma preocupação estilística detalhada do escritor. “Minha intenção era não cometer o erro do americano Jonathan Franzen, em Liberdade: todos os narradores têm um voz semelhante – na verdade, a do próprio Franzen”, explica. “Assim, esse velho, quando começa a falar, usa uma voz totalmente distinta da do filho. Ele até se revela um homem desencanado, pois simplesmente quer contar a história pelo prazer de narrar – algo que não acontece mais na literatura atual, no qual somos mais encanados.”

Embora tenha trabalhado como jornalista esportivo, Sérgio Rodrigues fez muita pesquisa para escolher os lances de jogos narrados por Murilo Filho. “Busquei momentos inexpressivos, pois mesmo os grandes jogos têm vários minutos em que não acontece nada.”

Com sua obra, o escritor homenageia Mario Filho, autor do clássico O Negro no Futebol Brasileiro, publicado em 1947 e comparado, por ele, a Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre, e Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda. "São livros com a pretensão de mostrar a formação do caráter nacional, tentar explicar a sociedade como um todo, algo que não existe mais entre os acadêmicos, pois, hoje, somos formado por um monte de fragmentos.”

 

O DRIBLE

Autor: Sérgio Rodrigues

Editora: Companhia das Letras (224 págs., R$ 38, a versão em papel, R$ 26,50, o e-book)

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