O feminino e o adultério

A rebeldia é defeito em Emma-mulher e virtude em Alexandre-homem ou em Bonaparte-homem

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

12 Novembro 2017 | 02h00

Ainda no ensino médio, li a obra de Flaubert, Madame Bovary. Minha imaginação literária de então estava povoada de adúlteras ilustres: a Capitu de Machado, a prima Luísa de Eça e Ana Karenina de Tolstoi. Emma Bovary foi a mais impactante para mim.

Religioso, conservador, interiorano e jovem, eu era muito inclinado a julgar essas mulheres. Por que tinham destruído suas vidas por um flerte passageiro? Emma me parecia superficial, preguiçosa, injusta com o marido simples que a amava, incapaz de estabelecer laços efetivos com seus vizinhos ou sua filha. Todos os autores citados eram homens falando da traição feminina. Ainda que Flaubert não tenha sido generoso com Léon ou Rodolphe e que Eça tenha reduzido o primo a um Don Juan previsível nas artimanhas, as mulheres eram culpadas. O julgamento moral masculino (que eu, na juventude, compartilhava) era somado a um ativismo laboral: se Emma tivesse arrumado algo para fazer, não ficaria pensando bobagens. 

Existia uma ideia que talvez perpasse muitos bons leitores e leitoras até hoje: quem se ocupa do que deve, quem realiza suas tarefas e constrói sua família com zelo evita o tédio e o vazio. A mente ociosa, reza lenda antiga, consegue atrair o artífice demoníaco. A ocupação é um exorcismo permanente que nos manteria no caminho do bem.

As questões vão mais além. Também jovem eu cometia a imensa injustiça de, à falta de informações sólidas sobre o tema, associar depressão com preguiça e falta de efetivo propósito de ação. Em resumo, nada entendia de problemas psíquicos e repeti, por vezes, a teoria ouvida de um amigo: um tanque de roupa suja para lavar sob o sol afastaria toda depressão. Não é verdade e eu me envergonho dessa ideia. A leitura de muitas obras (como O Demônio do Meio-Dia, de Andrew Solomon) e o acompanhamento de muitos colegas surpreendidos em pleno frenesi workaholic por aguda depressão retiraram-me da ignorância sobre o tema. Depressão pode ser tratada e preconceito também. 

Volto a Emma Bovary. O bovarismo é definido como um sentimento fantasioso sobre si, uma busca delirante de uma identidade que não corresponde ao real. No dicionário Houaiss, aparece como “tendência que certos indivíduos apresentam de fugir da realidade e imaginar para si uma personalidade e condições de vida que não possuem, passando a agir como se as possuíssem; faculdade que tem o ser humano de se conceber diferente do que é”. Emma continua no banco de réus até hoje. 

Para um novo olhar sobre a mulher de Charles Bovary, o amparo da mão de Vargas Llosa foi importante. O livro A Orgia Perpétua: Flaubert e Madame Bovary fez emergir uma heroína enredada no mundo e nos valores do Segundo Império. O farmacêutico que anelava pela Legião de Honra como grande objetivo de vida talvez fosse o grande anti-herói da obra. Emma, a rebelde contra as algemas de aço da sogra (ou de seda do marido idiota), tinha encontrado uma maneira de ser dentro do possível. Monsieur Homais era o patologicamente adaptado, talvez, junto ao marido de Emma, os verdadeiros doentes que cantavam felizes e produtivos na pacata gaiola áurea.

Aqui existe uma questão de gênero importante. Cobra-se de Emma a conformidade com seu papel linear e existe um secreto prazer no público conservador com a morte da adúltera. Emma saiu da linha, extrapolou a moldura, trouxe sofrimento a muitos e destruiu sua família. É justo que ela sofra pela rebeldia. 

A rebeldia é defeito em Emma-mulher e virtude em Alexandre-homem ou em Bonaparte-homem. Por que Alexandre não ficou satisfeito como rei da Macedônia e da Grécia? Tinha dinheiro e poder para toda sua vida. Não! Tinha de conquistar o mundo e virar Alexandre, o Grande. Napoleão era um jovem militar promissor e poderia ter encerrado os dias com prole tão numerosa como sua família corsa. Maria Letícia, sua mãe, teria acompanhado netinhos de alegre sotaque pelas ruas de Ajácio. Napoleão foi rebelde, construiu e desfez dois casamentos, traiu Josefina e Maria Luísa, levou 600 mil soldados para uma jornada suicida na Rússia e trouxe a morte para prováveis 90% do contingente.

Napoleão terminou preso em uma ilha remota até hoje, com seus inimigos vitoriosos, derrotado ao final até por D. João VI de Bragança. Napoleão é um herói e Alexandre é o maior homem que já viveu. Emma é uma adúltera ficcional que não aceitou seu papel. Sim, ela não era uma conquistadora ou líder militar, o que significa que matou menos gente do que outros. Assim segue o mundo, interpretado por homens, autores homens, com dedo em riste, aptos a acusar o que leva uma mulher a procurar cama alheia e cegos na observação daquilo que afasta toda Madame Bovary da cama original. O adultério de toda Emma é uma dupla acusação de fracasso. Saí da ignorância com leituras e observação. Um dia os sistemas morais conterão progesterona. Bom domingo para todas as Emmas e todos os Charles. 

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