O famoso quem

Pete Townshend revê influência fundamental do Who e faz o retrato doloroso de uma vida repleta de guitarras destroçadas

MICHIKO KAKUTANI , THE NEW YORK TIMES , O Estado de S.Paulo

13 Outubro 2012 | 03h08

"Ninguém sabe o que é ser o homem mau", escreveu Pete Townshend numa famosa música do The Who. "Ser o homem triste por trás dos olhos azuis/Ninguém sabe o que é/ ser odiado, predestinado a contar apenas mentiras". Bem, em seu novo livro de memórias, Pete Townshend nos diz exatamente, em outra canção, o que é ser "o homem triste" e o músico que sorri e sorri abertamente "com todas as mudanças" em sua vida. Ele responde à famosa pergunta da banda, "quem é você?". E possivelmente com mais detalhes que os fãs sempre quiseram conhecer.

Who I Am é um livro sincero, sofrido, voltado para uma busca interior - às vezes eloquente e prolixo, revelador e curiosamente conciso. Nele, Townshend, guitarrista e compositor das músicas do The Who, faz um relato íntimo e doloroso da sua vida como se numa sessão de terapia, e, ao mesmo tempo, narra a história da banda desde quando ela surgiu no cenário musical de Londres nos anos 60 e se tornou o símbolo da rebelião juvenil e do rock-and-roll ruidoso, anárquico.

O autorretrato de Townshend é rude e inclemente. Ele conta como sofreu abusos na infância e os sentimentos de vergonha, raiva e inquietação. Fala do uso de drogas, da luta contra o álcool, da prisão por suspeita de manter consigo fotos tiradas de um website de pornografia infantil.

Os muitos conflitos internos do artista são exaustivamente delineados. Ele conta como ficou dividido entre os anseios espirituais e a "vida rastejante" de uma estrela do rock, entre as pretensões intelectuais e "uma autoestima desesperadamente baixa", entre seus compromissos com a família e as demandas do "artista infantil, diabólico, o maldito egoísta, que vive na profundeza do seu ser", que "não deu a mínima importância para a paternidade".

Seus relatos da angústia mental que sofreu quando criança são terríveis: quando tinha 6 anos foi enviado inexplicavelmente pelos pais para a casa da avó cruel e mentalmente instável, que "acolhia homens da garagem de ônibus e da estação de trem em frente do seu apartamento o tempo todo"; um desses homens, ele sugere, o molestou. (As descrições de Townshend sobre este assunto são vagas. "Consegui manter os detalhes longe do alcance da memória", diz ele.)

Estas passagens do livro não oferecem somente uma perspectiva da ira mordaz e da violência que animaram as performances de Pete no palco, mas também são temas autobiográficos destacados na ópera-rock da sua banda, Tommy, que relata a história de um menino abusado e traumatizado que se torna uma espécie de messias pop.

Talvez porque o autor adote um enfoque mais voltado para o seu interior, Who I Am não oferece um sentido visceral ou particularmente vívido, como Keith Richards em seu livro Life de 2010, do que foi estar na estrada com uma banda de rock famosa, do que era o tumulto dos anos 60 e 70 visto de dentro, quando o rock and roll estava revolucionando o mundo.

Por respeito à privacidade dos seus colegas de banda ou o desejo de se concentrar na própria história de vida, Pete também se recusa a fazer retratos de Roger Daltrey (que ele chama de "líder inquestionável da banda", o que é questionável), de Keith Moon ou John Entwistle, que deem muito mais a conhecer as suas personalidades, seu talento musical ou as interações explosivas.

Jimi Hendrix é um dos poucos músicos que realmente adquire vida nestas páginas. Ele é descrito como um "xamã", que parecia ter "uma luz colorida cintilante" emanando "das pontas dos seus longos e elegantes dedos quando tocava". Sob certos aspectos, Townshend escreve, "as performances de Hendrix foram emprestadas das minhas - o feedback, a distorção, a encenação teatral da guitarra", mas seu "gênio artístico reside na maneira como ele criou um som todo próprio: a alma psicodélica, ou o que eu chamo de 'impressionismo do blues'".

Sobre Mick Jagger, Pete Townshend faz esta observação pessoal: "Ele é o único homem com quem desejei seriamente fazer sexo e parecia ser muito bem dotado". Quanto a Keith Richards, Townshend diz que se lembra de vê-lo se aquecendo nos bastidores em 1963 girando os braços como a hélice de um moinho; quando notou que Richards não usou aquele movimento no show que fizeram juntos mais tarde, "decidiu adotá-lo" - e naturalmente isso se tornou uma das suas marcas registradas no palco, como a detonação de guitarras, que era sempre aguardada pelos fãs do grupo.

Em Who I Am, Pete descreve as proezas mais conhecidas do The Who: suas brigas com Hendrix para saber quem se apresentaria em primeiro lugar no Monterey Pop Festival de 1967; seus confrontos com Abbie Hoffman em Woodstock; e as famosas destruições de quartos de hotel pela banda - incluindo uma comemoração de aniversário de Keith Moon particularmente escandalosa que acabou com um Lincoln Continental meio submerso numa piscina. O grupo foi proibido de se hospedar nos hotéis da cadeia Holiday Inn para sempre.

Infelizmente, tais descrições tendem a parecer uma repetição de histórias que o autor já contou centenas de vezes antes; há alguma coisa truncada e vagamente superficial nelas. Na verdade, a edição do livro todo às vezes parece peculiar: embora o leitor obtenha muita informação sobre as lutas de Townshend com a infidelidade conjugal e a bebida, outros trechos do livro estão repletos de "cortes que quebram a continuidade da narrativa", que a tornam irregular e imprevisível e diminuem o ritmo do livro.

O que Townshend consegue fazer com insight, verve e às vezes grandiosidade é descrever como o The Who e sua música evoluíram; como o grupo "se dispôs a expressar a alegria e a raiva" da geração que chegava à maturidade no "deserto adolescente" que era a Grã-Bretanha após a Segunda Guerra Mundial, sob a sombra da bomba atômica e profundamente distanciada do sistema de classes estabelecido. É por isso que o som original do The Who - com toda a gritaria e distorção, guitarras destroçadas e a bateria frenética de Moon, era tão agressivo e explosivo.

Este é o Pete Townshend teórico do rock - familiar para os fãs, que leram seus ensaios e críticas de música, ouviram suas entrevistas repletas de reflexão. Pete conta com toda sinceridade, nestas páginas, da influência que artistas como Kinks e Bob Dylan exerceram sobre ele, lembrando que quando se sentou pela primeira vez para escrever músicas para o The Who, ele se isolou na cozinha do seu flat em Ealing e ouviu inúmeras vezes músicas como The Freewheeling' Bob Dylan; Better Git It in Your Soul, de Charles Mingus, do Mingus Ah Um; Devil' Jump, de John Lee Hooker; e Green Onions, do Booker T and The MG's.

Aqui ele prova também ser uma espécie de historiador do rock, ao descrever o ambiente musical na Grã-Bretanha dos anos 60, quando o rock explodiu. Descreve como isso mudou drasticamente a velha ordem representada pelo swing que seu pai, clarinetista e saxofonista, tocava numa banda chamada Squadronaires. E explica como o The Who ampliou as fronteiras do rock, criando um dos primeiros álbuns mais aclamados, como (The Who Sell Out de 1967) e foi pioneiro na criação de uma ópera-rock, Tommy, em 1969.

Com diz o autor, o predomínio do Who começou a ser corroído com a ascensão do rock punk nos anos 70. "Embora músicas como My Generation e Won't Get Fooled Again tenham se tornado hinos de uma época particular", ele escreve, em 1981 "um abismo se abriu entre a banda e a nova geração". Muitos leitores, contudo, podem alegar que o movimento punk na verdade deve muito ao Who, em termos de atitude de desafio e o som propulsivo, intrépido.

Numa entrevista para a Rolling Stone em 1970, Pete afirmou com grandiloquência que o rock era "o veículo primordial para tudo. É o veículo primordial para dizer alguma coisa, para reprimir alguma coisa, para criar alguma coisa, para matar e criar". Ele defende com veemência este argumento - e a contribuição do Who para a causa - nas páginas deste livro profundamente sentido, e muitas vezes pesado. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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