O elo perdido entre a disco e o house

Muito se esquece, ao se torcer o nariz para a dita "música eletrônica" (um nome de gênero tão útil e revelador quanto o termo 'música tocada'), que os sons de pista que ouvimos hoje têm raízes na expressão de minorias oprimidas, tal como o rock brotou do grito do negro. Portanto, os gays, latinos e negros que, nos anos 80, transformaram a cultura underground de música dançante em forma de expressão têm tanto mérito na evolução da música pop quanto os bluesmen do delta.

ROBERTO NASCIMENTO , O Estado de S.Paulo

13 Outubro 2012 | 03h09

Um exemplo continuamente citado é o dos primórdios da house music, em Chicago, por volta de 85. Uma cena de produtores munidos de pouco mais do que sintetizadores e baterias eletrônicas transformavam a pulsação da disco em uma música de balanço mecanizada, mas não menos negroide em sua dinâmica rítmica, que se infiltraria em todos os gêneros, do rap ao rock, desde então. As origens desta cena são creditadas, em geral, a uma gravadora, a Trax Records, selo de mestres como Mr. Fingers, Phuture e Adonis. Mas antes desta eclosão de beats, que aconteceu por volta de 1987, há indícios de que uma gravadora independente chefiada por um certo Mitchbal Lawrence, já produzia vinis que hoje ajudam a ilustrar o momento em que a disco music oitentista (também conhecida como boogie) transformou-se em house. Algumas destas preciosas raridades foram lançadas em agosto pela gravadora Still Music, na coletânea 122 Bpm: The Birth of House Music, disponível pelo iTunes.

"As faixas são o elo perdido entre o new wave, o boogie, e o house. São mais orgânicas do que o que é conhecido como o house clássico, e retratam a mistura de influências que borbulhava na cena de Chicago, nos anos 80", explica o DJ e curador da edição, Jerome Derradji. Alguns dos artistas da coletânea, como o Risqué Rhythm Team, já circulam em blogs especializados há algum tempo, mas o material escavado por Derradji é fantástico, musicalmente, além de ser histórico. A garimpagem de Derradji começou quando este conheceu Vincent, filho de Mitchbal Lawrence, que lhe contou que fora dono de uma gravadora, em Chicago, nos anos 80, com o seu pai. Derradji foi atrás e descobriu que havia um rico acervo de música lançado pela Mitchbal Records. "Eles foram visionários", conta. "Eles produziam, vendiam, e escreviam letras para as faixas da gravadora. É a síntese do 'faça você mesmo'. A influência dos dois na história da música eletrônica é inestimável. Por isso lancei a coletânea", explica Derradji.

Entre os vários destaques, há o instrumental a la Prince, I Got Broke Breakdancing, Can You Feel It, de Mr. Lee e Kompany, e The Jackin' Zone, do Risqué Rhythm Team. Obscuridades essenciais da black music americana.

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