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O dragãozinho na coxa

Trabalhavam juntos num laboratório. Nunca tinham se visto sem os jalecos brancos que usavam no trabalho. E um domingo se encontraram na praia. Ela de biquíni, ele de sunga. Do jaleco que cobria tudo para a seminudez, sem etapas intermediárias.

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Luis Fernando Verissimo

10 Janeiro 2016 | 02h00

Ele já a imaginara nua, claro. E vice-versa. Imaginavam o que haveria por baixo do jaleco que cobria tudo. Normalmente, levariam tempo para descobrir. Seria um pouco como a exploração de Marte: primeiro teriam que construir um foguete, depois um robô, depois colocar o robô na superfície de Marte, depois esperar que o robô começasse a mandar fotos do que havia sob o jaleco de Marte...

*

Teriam que analisar as fotos com cuidado, para não haver enganos. Aquilo era uma sombra ou uma cratera? E aquilo, seriam pegadas? Um longo e lento processo. Mas ali, na praia, de repente, tinham toda a informação que queriam da superfície um do outro. Sem ter que esperar. O que era estranho. Até meio antinatural. Dois seminus não conversam como dois de jaleco.

Examinaram-se.

Ele: “Nada mau. Grandes seios, quem diria. Barriguinha, mas no limite do aceitável. Meu Deus, aquilo é uma tatuagem?”.

Ela: “Podia ser pior. Pernas finas, mas tudo bem. Iih, ele viu a tatuagem”.

Ele: “O que significa uma tatuagem ali? Nada, todas têm tatuagem, hoje em dia. Mesmo as patologistas. Mas ali? Parte de dentro da coxa? Perigo. Perigo”.

Ela: “Ele vai dizer alguma coisa sobre a tatuagem? Eu deveria dizer? É brincadeira, sai lavando. Não. Melhor ficar quieta. Melhor dizer alguma coisa”. 

- Você vem sempre aqui?

- Venho, venho. Domingos. Quando dá sol.

- Eu também.

*

E pronto. Não conversaram mais, não combinaram mais nada. Afastaram-se, e ele nem se virou para examiná-la por trás. Era melhor só voltarem a se encontrar no laboratório. Como se nada tivesse acontecido. Como se nada tivesse sido visto, nem o dragãozinho tatuado na coxa. Recomeçar a amizade de jaleco e deixar que o que tivesse que acontecer, acontecesse normalmente. Na exploração de Marte também é assim: tem que ser por etapas. Ninguém deve se precipitar. Para não haver o risco de um desastre. Ou de confundirem uma rocha com uma tartaruga. 

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