O debate sobre transgênero vai além da televisão

O debate sobre transgênero vai além da televisão

Tema ganhou visibilidade em cena histórica da novela das 9, ‘A Força do Querer’, mas já permeia cinema, música, literatura e teatro

Adriana Del Ré, O Estado de S.Paulo

31 Agosto 2017 | 06h02

A revelação feita à família pela personagem Ivana na novela das 9, A Força do Querer, de que é transgênero pode ser considerada um marco na TV, ao levar para dentro da casa dos telespectadores, mesmo na forma de ficção, um assunto que está na ordem do dia nos debates. Como reflexo da sociedade contemporânea, o folhetim de Gloria Perez deu um passo importante. A reação nas redes sociais mostrou que o público não ficou indiferente à emocionante cena que foi ao ar na terça, 29 – houve quem condenasse a existência da personagem, houve quem elogiasse a atitude da autora. O capítulo marcou 42 pontos de audiência em São Paulo, igualando com o recorde já obtido pela novela – e foi também o que mais repercutiu até hoje nas redes. 

Ivana se reconheceu como homem trans, e passará a se chamar Ivan. “Quando comecei a fazer os testes para a Ivana, primeiro fiquei muito feliz em saber que essa personagem ia existir, e segundo, quando passei, fiquei muito honrada, sabendo da responsabilidade deles no momento em que a gente vive hoje no Brasil, com gente que tem poder com ideias muito retrógradas e conservadoras. Entrar na casa das pessoas para discutir esse tema é muito importante para a luta contra a transfobia”, disse a atriz Carol Duarte, ao Estado.

Apesar da grande visibilidade conquistada em horário nobre, o tema transgênero é abordado nas artes em outros segmentos, como o cinema, a literatura, a música e o teatro – e ganhou maior força nos últimos tempos conforme o debate também foi avançando. Na cena musical atual, a representação LGBT na MPB, sobretudo, foi fortalecida por artistas como as trans Assucena Assucena e Raquel Virgínia, à frente do grupo As Bahias e a Cozinha Mineira, e Liniker. Seja ao lado dos Caramelows, seja sozinha, Liniker tem uma agenda recheada de shows, além de participações especiais em projetos de outros artistas. Já As Bahias e a Cozinha Mineira acabam de lançar o segundo disco, Bixa

Atualmente, está em cartaz nos cinemas o elogiado filme Corpo Elétrico, de Marcelo Caetano, que aborda o universo LGBT, e a rotina e o círculo de amizade de um jovem gay, formado por outros homossexuais e trans. Mas vale lembrar que a atriz Ana Beatriz Nogueira foi premiada com o Urso de Prata, no Festival de Berlim, ao viver um homem trans no filme Vera, de 1987, inspirado numa história real. Na literatura, entre diversos livros lançados sobre o tema, destaque para Este Livro É Gay – E Hetero, E Bi, E Trans..., do britânico James Dawson.

No teatro, esta semana, a versão brasileira da polêmica peça O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, da dramaturga Jo Clifford, foi apresentada no festival Cena Contemporânea, em Brasília, com a atriz transexual Renata Carvalho no papel de Jesus. Já Silvero Pereira, outro destaque em A Força do Querer como a travesti Elis Miranda, ganhou reconhecimento com a peça BR-Trans, que ele escreveu e é protagonista – e na qual o ator chamou a atenção de Gloria Perez. O monólogo foi construído com base em histórias de travestis, transexuais e transformistas.

Em entrevista recente ao Estado, Silvero afirmou que a peça causa impacto, porque as pessoas ainda vão assisti-la com preconceito, por acreditarem que um espetáculo sobre travestis, transformistas e transexuais é superficial. “Na verdade, a gente aprofunda as questões e traz uma discussão de igualdade, principalmente porque a gente traz questões do medo, da solidão, da falta de afeto, e o quanto isso pode provocar em qualquer pessoa, independentemente da identidade de gênero.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.