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Milton Hatoum

O Corpo, o Congo e um irlandês

Noite de outubro, 1998. Tinha acabado de assistir a um espetáculo do Grupo Corpo, e ainda estava impressionado com a plasticidade da coreografia, a diversidade rítmica de maracatus, congados e batuques de candomblé, belíssimas composições de João Bosco. Rituais africanos, e tão brasileiros que dispensam a expressão “afro-brasileiros”, pois no Brasil tudo é mestiço, sem traço de união...

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Milton Hatoum

26 Fevereiro 2016 | 02h00

Toda a beleza do Corpo vibrava na minha memória visual e auditiva, e quando enfiei a mão no bolso da calça, o tíquete do estacionamento veio junto com um bilhete de trem, datado de abril, 1993.

Por que guardara esse tíquete Paris–Bruxelas? Por que tinha ido à Bélgica?

Entrei no carro e não me lembrei de Bruxelas, que mal conheci, e sim das máscaras e estatuetas incríveis da coleção de arte africana do Museu Real de Tervuren. A história desse museu prodigioso está ligada à Conferência de Berlim em 1884, quando os Estados Unidos e vários países europeus debateram o livre comércio e a exploração dos recursos naturais da África. Mas desde 1865 o rei Leopoldo II já explorava um território africano 75 vezes maior do que a Bélgica, e o Estado Livre do Congo e seus habitantes se tornaram uma propriedade particular do rei.

Vi em Bruxelas edifícios e palácios suntuosos construídos com o dinheiro da borracha, do marfim e dos minérios explorados na propriedade do monarca, mas na visita ao Museu Real da África Central não havia qualquer alusão aos crimes praticados pela “Força Pública” de Leopoldo II. A propaganda de reis e governantes europeus consistia em levar a luz da civilização e do progresso ao continente africano. O resultado sinistro desse falacioso empreendimento civilizador resultou num dos maiores genocídios da era moderna: milhões de africanos vitimados por execuções em massa, epidemias, torturas e castigos, incluindo mutilações em crianças e adultos.

Denúncias desse genocídio surgiram por volta de 1900, com a publicação de artigos do jornalista Edmund Morel e relatórios e fotografias do irlandês Roger Casement, que trabalhou por mais de cinco anos no serviço consular do Reino Unido no Congo. Nessa mesma época surge uma das narrativas mais poderosas da literatura inglesa: Coração das Trevas (1900).

Joseph Conrad navegou pelo Congo em 1890, quando testemunhou as atrocidades a que eram submetidos os africanos. Em junho, quando conheceu Roger Casement no porto de Matadi, certamente ouviu informações que foram úteis, senão cruciais para escrever Coração das Trevas. Não há exagero nas cenas de horror macabro que aparecem na ficção de Conrad. Numa carta a Edmund Morel, Casement ressalta que “o trabalho dos Civilizadores é um crime organizado, muito pior do que qualquer coisa que os selvagens fizeram antes”.

Em 1908, pressionado por denúncias na imprensa do Reino Unido e de outros países, o rei Leopoldo II transferiu seu território particular ao parlamento belga, mas a empresa “civilizadora” prosseguiu até 1960, quando o Congo Belga tornou-se independente.

Dois dias é pouco tempo para a gente ver tudo num museu tão grandioso. De volta a Paris, me lembrava dos animais empalhados, plantas, mapas e fotografias, principalmente da arte africana, que tanto influenciou grandes pintores e escultores da Europa. Eu me perguntava por que o diretor do museu (ou o Ministério da Cultura da Bélgica) ocultava a barbárie de seu rei “civilizador”. Também pensava nisso na noite de outubro de 1998, quando voltava pela marginal ao Largo da Batata, depois de ter visto a deslumbrante festa de cores, sons e movimentos do Grupo Corpo. Maldito bilhete de trem esquecido no bolso! Esse pedaço de papel me levou para tão longe e, por uns minutos, ofuscou o prazer daquela noite. Mas as lembranças que se cruzaram em tempos e lugares diferentes me estimularam a conhecer um dos períodos mais sinistros do colonialismo europeu e a relevância de Roger Casement na África, na Irlanda (seu próprio país) e na América Latina, incluindo o Brasil, onde ocupou postos consulares em Santos, Belém e no Rio.

Até a noite do Corpo, em 1998, sabia apenas que Casement, amigo de Conrad, tinha sido um ardente defensor dos direitos humanos. Depois li a notável biografia de Roger Casement, 16 Lives (O’Brien Press), escrita pelo historiador irlandês Angus Mitchell. Depois da leitura dessa biografia e de outro livro de Mitchell, Roger Casement no BrasilA Borracha, a Amazônia e o Mundo do Atlântico (Trad. Mariana Bolfarine, ed. Humanitas) percebi a verdadeira grandeza moral desse ativista da dignidade humana, sem dúvida um dos intelectuais mais corajosos e íntegros do Ocidente.

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