O cinema elimina o tempo

Meu fascínio por festivais devo a Justino Martins que, na década de 1950, fazia a cobertura de Cannes para a revista Manchete

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

13 Outubro 2017 | 03h00

Meu fascínio por festivais devo a Justino Martins que, na década de 1950, fazia a cobertura de Cannes para a revista Manchete. Cannes era o máximo em glamour, beleza, mulheres lindas, estrelas, grandes diretores. Ninguém pensava no Oscar, era, e é, festinha provinciana de Hollywood. As estrelas francesas eram sensuais e mostravam os seios com generosidade, coisa que não se via no cinema americano. Brigitte Bardot, Mylène Demongeot, Simone Signoret, Martine Carol, Françoise Arnoul, Cécile Aubry, Claudine Dupuis eram minhas preferidas. Mas Cannes tinha diretores como René Clement, Marcel Carné, Robert Bresson, Jean Renoir, Clouzot, Resnais, depois Truffaut, Godard, Agnès Varda (ela está vindo), Louis Malle. Para nós, Cannes era intelectualidade e sensualidade. Era acima de tudo a festa do cinema, e os olhos do mundo se voltavam para lá. Ainda é. Nunca fui, é um de meus projetos há tempo, tenho apenas 81 anos. Depois, descobri Veneza, San Sebastián, Berlim, Karlovy Vary, pura celebração de filmes.

Em 1954, lá de Araraquara, acompanhei em transe, o 1.º Festival Internacional de Cinema do Brasil, parte das festas do 4.º Centenário. Bandos de estrelas, atores e diretores norte-americanos, franceses, italianos, mexicanos. Entre outros, o legendário Erich von Stroheim, que tínhamos visto em Crepúsculo dos Deuses, de Billy Wilder. Também vieram Edward G. Robinson e Walter Pidgeon, que se puseram a pregar a favor da lista negra e das prisões e inquéritos instaurados em Hollywood pelo odioso senador McCarthy, contra a liberdade de expressão, que acabou com a carreira de centenas de cineastas e atores de primeira linha. A arte sempre incomodou os oportunistas. 

Daquele festival tenho o cartaz original a mim presenteado pelo seu autor Alexandre Wollner. Emoldurado, me lembra que cinema foi meu sonho. Substituí pela literatura, que me dá enorme prazer (e angústia). Festivais de cinema brasileiro cobri muitos por este Brasil. Nos anos 1960 e 1970, eles pipocavam pelo País.

Lembro-me ainda de dois filmes da primeira Mostra de São Paulo, em 1977, Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia e O Enigma de Kaspar Hauser. Criada por Leon Cakoff com a força que somente um louco sonhador divino apaixonado pode, a Mostra seguiu e chega à 41.ª edição. Das Mostras e dos festivais tenho ainda a nostalgia da maluquice que significava escolher os filmes. Era necessário uma logística apurada. Ainda é. Filmes, horários, salas, deslocamentos entre uma sala e outra, horas de comer (vi muito filme com fome, e daí?). Invejava os que tinham permanentes, ou seja acesso gratuito. Sempre tive pudor e educação, jamais quis dar “carteirada”, ainda que tenha dado uma e outra. Jornalista e crítico, conhecia os bastidores e sabia da saia-justa dos organizadores com a organização e os “carteirantes”. O sujeito chega: “Sabe quem sou? Claro que sabe! Veja aí, preciso de tantos ingressos para tantas pessoas para os filmes”. E vem uma lista de toda a Mostra. 

Formávamos grupos, fazíamos as escolhas, nos dividíamos, íamos para as filas. Ao amadurecer, passei a ter colaboração dos meus filhos, os três adoram cinema, um faz fotografia de cinema. Tudo é adrenalina, até o momento de as cortinas se abrirem (são raras as cortinas nas salas) e o foco azulado bater na tela. Aí, começa a emoção. Para mim, igual desde o primeiro filme que vi, A Canção de Bernardette, que me deixou siderado. Eu tinha 10 anos.

Com paciência, garimpo, dúvidas, dívidas, pesquisas, contatos, busca de patrocínios, Leon Cakoff realizou suas mostras por anos. Hoje, ele é uma figura tão importante na história do cinema em São Paulo, quanto Paulo Emílio Sales Gomes, Almeida Salles, Caio Scheiby, Rudá de Andrade, Dante Ancona Lopes, Benedito J. Duarte, Jean-Claude Bernardet. Sei que há dezenas de outros. Daqui a uma semana, terá inicio mais uma Mostra. Nas mãos de Renata de Almeida, que, assim que o marido Leon partiu, disse: agora é comigo. E está sendo, mesmo porque é a vez das mulheres. Lembro-me de mulheres que nos primeiros tempos foram suporte na Cinemateca Brasileira – um pouco base teórica de tudo isso –, como organizadoras, arquivistas, assessoras de imprensa, quando tudo era meio amador: Nilce Tranjan, Fátima Pacheco Jordão, Lucila Bernardet, Lygia Fagundes Telles.

Ainda não sei o que vou ver. Há muito, mas muito mesmo, são 390 filmes, boa parte dirigida por mulheres, há também filmes sobre diversidade, problemas do mundo. Algo me deixa agoniado. Imaginem se aqueles que andam de olho, vigiando o “exagero das artes”, em nome dos costume e da moral, decidirem intervir? Vai dar rebelião. Fico pensando se essa gente de Neandertal percorresse museus, dando com telas como A Origem do Mundo, de Courbet. Ou a Vênus Deitada, de Ticiano Vecellio, em que um garotinho tem as mãos nos seios de uma farta mulher – pedofilia? Ou – ó Deus – A Madonna de Leite, de Lorenzetti em que Maria dá os seios a Jesus. Sem esquecer os olhos lascivos do bebê diante do seio da Madonna no quadro Virgem do Leite, de Frei Carlos, século 16. Sacrilégios? E o que pensar de A Fonte, de Duchamp? Um mictório é arte?

Que a Mostra, tradição cultural do Brasil, tão importante quanto a Bienal Internacional de Artes, seja aberta e fechada em plena liberdade, amor à arte, emoção. O que me encanta é ver nas salas a multidão de jovens ansiosos, inquietos, famélicos. De bengala, pé avariado em uma queda, vou aos cinemas que estiverem mais perto. Subirei à Paulista, ao vão do Masp, para rever O Padre e a Moça, de Joaquim Pedro, e adorarei descer ao centro, ao renovado Marabá, que abrigou todas as estreias da Vera Cruz. Vou tentar ver o máximo. Um amigo me viu, ficou pesaroso: “Como vai escrever agora, com esse pé inchado?”. Respondi: “Escrevo com a cabeça e a mão”. A Mostra mistura em mim o ontem, o amanhã e o hoje. O cinema elimina o tempo. 

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