O caminho salgado de um país à deriva

Em A Máquina de Fazer Espanhóis, Valter Hugo Mãe, consagrado na Flip, usa imagem de um idoso no asilo para retratar Portugal

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

16 Julho 2011 | 00h00

O escritor angolano valter hugo mãe - que, tal como se lerá adiante, vem assinando em minúsculas - pensou que o fascismo dos homens bons seria um bom título para um livro que relaciona velhice e decrepitude física à história do desaparecimento simbólico de Portugal numa União Europeia empenhada em destruir a identidade de seus membros. Pensou melhor e concluiu que a máquina de fazer espanhóis (2010) seria um título ainda mais apropriado para este romance sobre um barbeiro, Antonio, que, aos 84 anos, perde a mulher, sendo internado num lar de idosos, onde conhece o centenário Esteves - aquele Esteves "sem metafísica" do poema Tabacaria, de Pessoa -, além de topar com uma criatura real, Anísio Franco, o mesmo Anísio Franco conservador do Museu Nacional de Arte Antiga de Portugal.

hugo mãe escreve todo o romance com minúsculas, mantendo-se fiel ao artifício formal de sua tetralogia sobre as quatro idades do homem - composta ainda por nosso reino (2004), o remorso de baltazar serapião (2006) e o apocalipse dos trabalhadores (2008). O próximo livro, garante, voltará a incorporar maiúsculas. É lícito esperar, portanto, uma nova fase literária sem ligação direta com a oralidade e sem a "humildade" gráfica que justificariam, segundo o escritor, suas letras minúsculas. Consagrado pelo público da última Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), Valter Hugo Mãe já pode usar letras maiúsculas sem nenhum pudor.

Em a máquina da fazer espanhóis ele esboça essa superioridade gráfica ao usar maiúsculas para resumir a vida de Enrique, o espanhol que adotou a cidadania portuguesa, fugindo do fantasma de Franco. Enrique proclama sua soberania em capitulares, sendo imediatamente recriminado por um inspetor de polícia que teria preferido passar a vida minúscula falando castelhano e ganhando seu salário como um espanhol. Aliás, o referido capítulo (17) empresta o título ao livro para explicar a intenção do autor: ainda que não se trate de uma obra política, seu conteúdo critica a homogeneização ideológica e a padronização cultural impostas pelo que ele chama de "efeito Europa" - que estaria obrigando os pequenos países a trocar seus dialetos, suas tradições e cultura pelo direito de usar o euro como moeda.

A assertiva de Hugo Mãe no capítulo 19 - "fomos sempre um povo de caminhos salgados, isto é coisa para nos amargar o sangue" - mostra que o fado não nasceu por acaso e que só existe uma palavra (angústia, a última do livro) capaz de resumir o drama de uma nação que, a exemplo do velho Antonio, resignou-se ao trágico destino de um asilo do qual só sairá para o mundo dos espectros, futuro que pode esperar Portugal se não conseguir pagar suas dívidas. a máquina de fazer espanhóis é, portanto, um livro fatalista, construído com sintaxe convulsiva, prejudicada à vezes pela metaforização excessiva da situação do pobre Antonio Jorge da Silva, sempre associado à queda livre de Portugal - provocada, em parte, pela ideia de que nada muda, nem mesmo os sobrenomes.

Há uma profusão de Silvas na história, a começar pelo barbeiro Antonio, o narrador, que encontra na casa de repouso outros silvas, um deles identificado pelo próprio como o "silva da europa", aquele já aculturado, que abjurou suas crenças e costumes para falar a linguagem da Europa unificada, monstruosa, inimiga da diversidade. A Antonio não lhe deixam sequer o álbum de fotografias no asilo. Trocam a imagem da mulher por uma de Nossa Senhora de Fátima, na esperança de erradicar da memória a morta para que o fardo da existência seja menor ao viúvo. Não é. Para o pessimista, esperar por Deus é o mesmo que esperar por Peter Pan.

O uso de figuras míticas como Salazar e da eterna rivalidade futebolística entre o Porto e o Benfica serve para traduzir esse drama nacional da perda - da juventude, do poder, da própria identidade. Mas Hugo Mãe fez melhor em o remorso de baltazar serapião, ao escancarar a persistência de um certo arcaísmo na sociedade portuguesa, com um pé fincado numa realidade agrária, ancestral, e outro na modernidade europeia.

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