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Cultura

Belo Horizonte

O bacilo e o telebeijo

Não contem comigo, vou desde já avisando, mas será preciso que um dia alguém escreva sobre a contribuição da tuberculose ao desenvolvimento de Belo Horizonte, a cidade onde nasci. Digo mais: não só botar em letra de fôrma essa história como erigir um monumento ao bacilo de Koch – o causador da doença que, tudo considerado, tanto bem fez à capital das Minas, cidade riscada na desolação do povoado de Curral del Rey, no final do século 19, para abrigar os poderes estaduais até então sediados em Ouro Preto. Não sei que forma terá esse microrganismo, se será fotogênico, mas não tenho dúvida de que é merecedor de reconhecimento em bronze ou pedra.

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Humberto Werneck

22 Março 2016 | 02h00

Eu próprio, conforme já contei, devo a esse bichinho minha insignificante existência. Sim, sou descendente do bacilo de Koch, o qual, no ano de 1906, viajou do Rio de Janeiro a Belo Horizonte, de maria-fumaça, alojado nos pulmões de um jovem carioca, médico de 28 anos que morreria aos 56 sem saber que viria a ser o avô paterno do autor destas linhas.

Hugo Furquim Werneck ali chegou em busca de consolidar nos famosos bons ares de Minas Gerais um tratamento iniciado na Suíça. Curado, por algum motivo decidiu permanecer na biboca que era então Belo Horizonte, para desespero, imagino, da vovó Dora, com seu sangue inglês e sua tolerância zero aos cafundós. O casal tinha 2 filhos e em Minas semeou mais 11, um dos quais veio a ser meu pai – e eis aqui a explicação para estar eu a catar milho neste teclado e nesta vida.

A contribuição da tuberculose ao desenvolvimento de Belo Horizonte está longe de se resumir ao Dr. Hugo, aquele professor de quem o ex-aluno Pedro Nava irá traçar retrato tão implacável quanto verossímil em Beira-Mar, o 4.º volume de suas memórias. Outros jovens médicos com pulmões bichados também fizeram a viagem e por lá ficaram. Entre eles, meu tio-avô Henrique Marques Lisboa, casado com Alice, irmã de minha avó. Não só médicos, pois bacilo não discrimina ofício. Forasteiros da mais variada formação ajudariam aquele rascunho de cidade a ganhar carnes de metrópole.

Num lugarejo com tão poucos quadros, Hugo Werneck foi solicitado a participar de todo tipo de iniciativa, nas brechas da medicina, tendo sido, por exemplo, um dos fundadores do Banco da Lavoura, depois Banco Real, do qual morreu diretor-presidente e em cujos cofres nunca tive, ai de mim, 1 real que fosse.

Em termos materiais, a contribuição maior de meu avô à cidade adotiva ficaria sendo um sanatório para doenças pulmonares, há muito desativado, que fez construir num canto de sua fazenda, situada num sovaco da região metropolitana de Belo Horizonte. Minhas lembranças das férias na fazenda são marcadas pela recomendação de guardar distância dos doentes. Mal sabiam meus pais que em mais de uma ocasião pitei pontas de cigarro atiradas das varandas.

Hoje sob controle, a tuberculose costumava equivaler a sentença de morte, e fez estragos na família de minha mãe, os Azeredos. Talvez por não me cuidar, chegado que era no pito e no copo, vivi em pânico intermitente até o início da idade madura, quando consegui enxotar o espantalho que minha mãe volta e meia chacoalhava: “Olha a tuberculose!”. O risco maior, temia o fedelho metido a escritor, era morrer sufocado pelo sangue das hemoptises, como Castro Alves, mas, ao contrário dele, sem deixar um só verso que prestasse. Ter sido poupado me tirou a chance de permanecer como portento que só a morte impediu de produzir obra imortal.

Quando, já sem tais veleidades, me mudei para o frio de São Paulo, em maio de 1970, virei freguês de um laboratório, na rua Xavier de Toledo, no qual, cheio de presságios, batia ponto quase mensalmente para fazer abreugrafia. “Ainda não foi desta vez...”, gozava o radiologista.

Por causa sobretudo da tuberculose, na casa dos avós Azeredo não se entrava sem imediatamente lavar as mãos. Desconfio que o próprio sabonete era lavado. Ao menor sinal de gripe, isolava-se e fervia-se tudo com que o enfermo tivesse contato. Foi preciso crescer e bater asas para me dar conta do excesso tragicômico que se punha em tais cuidados. E perceber que se cuidava, com ênfase ainda maior, da saúde da alma, exposta que estava, o tempo todo, à solércia dos bacilos do pecado.

Naquela casa não faltava amor, longe disso, o que faltava era contato físico, pele na pele, mesmo no inocente beijo entre parentes. Devia o rosto refrear-se a prudente distância de outro, limitando-se os lábios a estalar o que chamei de telebeijo. Não se falava no assunto, nem era preciso. No mudo carrascal da moralidade mineira de então, o bacilo de Koch justificava tudo.

 

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