João Caldas/Divulgação
João Caldas/Divulgação

O amor no vazio do computador

'Decifra-te ou me Devora' mostra o impasse das relações virtuais nesta era de muito contato e pouca comunicação

Jefferson Del Rios - O Estado de S. Paulo,

11 Março 2011 | 09h00

Decifra-te ou me Devora é um espetáculo sobre as relações virtuais e, quem sabe, um convite à heresia de admitirmos a banalidade da letra de La Vie en Rose. A canção da mulher submissa e ingênua correu o mundo na voz de Edith Piaf, e não cessa de ser regravada por outros artistas. Uma hipótese para o seu sucesso é a envolvente música de Louis Gugliemi, francês de origem italiana. O resto é Piaf e porque em 1946, quando foi lançada, as dores da guerra recente pediam bálsamos sonhadores. Mas todo Lupicínio Rodrigues é melhor.

Passaram-se décadas e a busca da "vida rósea" lança agora as pessoas nas redes dos contatos através de blogs, torpedos, Facebook, e-mails, etc., etc. Lanternas dos afogados (curioso: "torpedo" é nome de uma bomba submarina. Artefato destrutivo). Não se sabe exatamente se os responsáveis pelo roteiro (Elias Andreato, Helô Cintra e João Paulo Lorenzon) se preocupam com as carências afetivas ou se, ancorados em autores de renome (citados na peça) mostram como até eles, esses consagrados, se apresentados fragmentariamente soam como literatice. Mas, e daí? Fernando Pessoa já ensinou que "todas as cartas de amor são ridículas". Algumas, pelo menos, têm estilo.

Já os fissurados por truques virtuais nem sempre desfrutam de intimidade com a palavra. Emitem espasmos verbais pelo teclado (no espetáculo, o personagem masculino simula o uivo do lobo. Realmente é mais bonito do que o palavrório vazio). De qualquer forma, o texto e sua encenação não explicam o que nem a neurociência ainda conseguiu saber. Ou seja: o motivo de o fascínio ancestral, indígena, pelo espelho ser repetido na compulsão atual pelo telefone; no fotografar por fotografar; e no falar por falar.

Diante da não resposta, fica o jogo de palavras do título para cada espectador decifrar o indecifrável à sua maneira enquanto acompanha a irresolvida viagem amorosa dessa dupla. Se há lampejos de esperança, às vezes o casal aparenta se arrastar no interior de versos de W.H. Auden: "É hora de apagar as estrelas/ guardar a lua/ desmontar o sol brilhante/ de despejar o mar, jogar fora as florestas/pois nada mais há de dar certo doravante".

A montagem não é uma tese, mas um retrato batido como o celular. Ela é sustentada por lances de boa interpretação e apurados recursos técnicos e artísticos (vídeos, iluminação, figurino, cenário e a estilização dos gestos). A dupla de intérpretes, agarrada a aparelhos ultramodernos, gira no território antigo-arcaico do teatro, o que é um simpático paradoxo. Amor e desejo improváveis e simultaneamente reais estão simbolizados pelo passionalismo de Helô Cintra e sua sensualidade vestida de seda/cetim.

Ela encarna o ímpeto feminino crédulo. É bela e prende nossa atenção com a angústia das suas expressões e a voz eloquente. A alta tecnologia não acalma sua personagem, não resolve seu impasse existencial. Eis aí uma das pontas do enigma. João Paulo Lorenzon ao sustentar linearmente a clássica atitude masculina entre o tédio e a contenção corre o risco de parecer menos empenhado.

O espetáculo dirigido por Elias Andreato é sofisticado justamente ao dar a impressão de despretensioso. Na realidade, é elegante. Deixa no ar um toque de dúvida em tempos em que o grafite pode ser arte ou vandalismo, o YouTube, poesia ou chantagem. Tempo de pouca "vie em rose" quando se faz muito contato para pouca comunicação.

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