Nua na enxurrada em plena Augusta

Altério teve uma ideia: 'Fique aí, compro um sabonete, venho já, já!'

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

02 Fevereiro 2018 | 02h00

Meio-dia em ponto, final do ano. Dia quente, mulheres se protegendo com sombrinhas. Saí do banco sob um belo sol. Estiada entre duas chuvaradas. Ouvi vozes autoritárias, irritadas: 

“Meu Deus, onde chegamos?”.

“O mundo acabou! Não há mais vergonha neste país.”

“Só faltava essa! Não tem polícia p’ra levar essa mulher?”

“Cadeia, só cadeia.”

“Cadela, vadia, ofendendo a todo mundo desse jeito, merece uma surra.”

Ainda ofuscado pela luz do sol, a princípio, pensei que fosse alguma manifestação contra a ministra do Trabalho não empossada. Então, vi. Nada disso. Uma mulher, parda (ou que expressão devo usar para não incorrer na sanha das redes?), tinha levantado a saia até a cintura. Sem calcinha sentou-se numa corredeira que, junto ao meio-fio, saía de algum prédio e formava uma boa enxurrada de água límpida. Com as mãos, ela jogava água pelo corpo, lavava suas “partes” (como dizem os moralistas), sorria. Feliz. Molhava o rosto e deixava a água escorrer, o vestido todo molhado. Atravessei a rua ao lado de um senhor alto, que me disse se chamar Altério, nome curioso. A mulher nos olhou, sorrimos para ela, que fez um aceno breve, deitou-se inteira na enxurrada, a água respingou. Ela:

“Vocês não me xingaram”.

“Não e até se a gente pudesse entraria nessa água também. Está quente p’ra danar.”

“Estava melada e suada, Deus me trouxe esta água. Geladinha que dá gosto. Precisava disto.”

Altério teve uma ideia:

“Fique aí, compro um sabonete, venho já, já!”.

Tinha uma drogaria a 50 metros. Não foi mão de vaca, trouxe um belo sabonete. A mulher recebeu o presente encantada, olhos faiscando, como se fosse uma joia da Francisca Botelho. Abriu, passou no rosto:

“Melhorou. Fiquei cheirosona. As pessoas se afastam quando passo. Culpa minha? Tanto tempo que não usava sabonete”.

Transeuntes (perdoem tal palavra) passavam indignados:

“Não tem vergonha? O que pensa?”.

“Chama logo a polícia, tem uma delegacia aqui do lado.”

Tem mesmo, na Rua Estados Unidos, e alguém se propôs a correr até lá, mas Altério, duas mulheres que se colocaram ao nosso lado, um jovem com barba e tatuagem e eu seguramos o sujeito:

“Tem coragem de chamar a polícia para prender uma coitada que toma banho? Que tenta ficar limpa no meio da miséria do mundo dela”.

“Que tome banho em casa.”

“Acha que ela tem casa?”

“Vagabunda, com essa indecência.”

“É louca, vamos dar uma surra.”

“Imagine isso numa rua chique como a Augusta.”

Tive vontade de interromper:

“Já foi, minha senhora, já foi! Agora é pura decadência, estacionamento por toda parte, lojas e bancos fechados, muquifos”.

Desisti. Adiantava fazer discurso nessa hora? Juntava mais gente, Altério e eu ajudamos a mulher a se levantar, ela baixou o vestido, ficou a nos olhar. Demos apoio: “Não ligue para essa gente, não! Educação, afeto, ajuda, tudo isso acabou”.

“Acha que escuto? O que ouço toda hora, a vida inteira? Cago pra eles. Senão ficaria louca. Ao menos tomei meu banho, ganhei um sabonete.”

E se foi, molhada, pingando, a cabeça arguida, refrescada e nos parecendo feliz. Alguns ainda a seguiram humilhando. 

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