Novela faz história

Pesquisadoras abastecem interesse do público pelo Rio de 1900 visto na novela das 6

CRISTINA PADIGLIONE, O Estado de S.Paulo

25 Novembro 2012 | 02h12

Espectador que teima em contestar novela e faz disso um hobby corre o risco de ampliar seu repertório de conhecimento quando a trama é de época - desde que o embasamento seja confiável, como apontam os indícios de Lado a Lado, atual folhetim das 6 da Globo. Ficção emoldurada pelo contexto histórico do Rio de Janeiro de 1903 a 1910, o enredo de João Ximenes Braga e Cláudia Lage tem chegado a salas de aula e instigado a plateia a buscar informações sobre a época. Ali, estão a luta pela conquista de espaço da primeira geração negra livre, a emancipação feminina, o surgimento das favelas, do samba, a capoeira e o futebol.

Nos recentes capítulos, a isca que levou o público aos livros de História ou ao Google foi o uso do termo "divórcio" para aqueles dias. Ciente de que o menu provoca a audiência, a Globo criou no site da novela a seção "Naquele Tempo", no qual duas historiadoras escrevem sobre os fatos e comportamentos que permeiam o roteiro: Luciane Reis, formada pela Universidade Federal Fluminense, que também atua como pesquisadora dos autores, e Rosane Bardanachvili (UFF) e mestre da História da Cultura (PUC-RJ).

Luciane explicou que divórcio era, sim, usado na época. "Os casais tinham direito ao divórcio", mas a indissolubilidade do matrimônio só valia no papel. O termo divórcio foi substituído por desquite em 1916, quando foi aprovado o Código Civil Brasileiro, e só em 1977 foi instituído o divórcio como conhecemos hoje.

"O que instiga o público é essa ponte que a novela faz com o presente, com temas que fazem parte da vida das pessoas na época da novela e continuam até hoje", fala Cláudia Lages. Supervisionada por Gilberto Braga, que levou Escrava Isaura e Anos Rebeldes para a TV, a dupla de novos autores aprendeu com o mestre que fato histórico citado em cena tem de "gerar tensão e conflito para os personagens". Só assim o público embarca no enredo.

Ximenes dá um bom exemplo da teoria: "Quando a gente falou do bota-abaixo (a derrubada do cortiço onde vivia Isabel/Camila Pitanga), o que importava ali era o drama da protagonista que perdeu o noivo (Zé Maria/Lázaro Ramos) e a casa no mesmo dia." "O interesse que veio pela História, ver um jovem publicar no Twitter que aprendeu mais sobre a revolta da Vacina em três capítulos da novela que em três anos de ensino médio, é a cereja no sundae", comemora o autor.

Sobre a questão racial, outro ponto forte da trama, o elo com o passado permite "maior compreensão de por quê as coisas são como são", diz Cláudia. Mas "o tema da novela não é o racismo, e sim a luta contra ele", ressalta Ximenes. "É uma celebração da cultura afro-brasileira."

Para quem quer saber mais fora da novela, Luciane indica, a pedido do Estado, alguns títulos para leitura: Os Bestializados, de José Murilo de Carvalho, Trabalho, Lar e Botequim, de Sidney Challoub, Pereira Passos: Um Haussmann Tropical, de Jaime Larry Benchimol e o volume 3 da coleção História da Vida Privada no Brasil - República: da Belle Époque à Era do Rádio, sem falar na literatura de Lima Barreto e João do Rio.

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