'Nostalgia da Luz', do chileno Patricio Guzmán, chega em edição especial em DVD

O IMS lança, numa bela edição com extras, o deslumbrante filme em que o diretor reflete sobre seu país, e o cinema

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

03 Janeiro 2016 | 03h00

​Dois grandes autores foram homenageados pela Mostra neste ano – o chileno Patricio Guzman e o italiano Ermanno Olmi. Ambos eram esperados em São Paulo, mas não puderam vir. Vieram só seus filmes recentes, exibidos na Berlinale, em fevereiro. Botão de Pérola, do primeiro, e Torneranno i Prati, do segundo. Na sequência de Botão de Pérola estreou nos cinemas, com atraso, o longa anterior de Guzmán, Nostalgia da Luz. É o mesmo filme que o Instituto Moreira Salles lança em DVD, numa edição cheia de extras. Entre eles, textos do diretor, do crítico José Carlos Avellar e do cineasta Jorge Bodanzky.

Na Berlinale, e justamente em conversa com Avellar, o repórter comentava como os júris de festivais não sabem como se comportar diante de documentários. Raros ganham o grande prêmio. Fahrenheit 11 de Setembro, de Michael Moore, ganhou a Palma de Ouro em Cannes, no que não deixou de ser um gesto de provocação do júri então presidido por Quentin Tarantino contra o presidente George W. Bush, que tentava a reeleição. Botão de Pérola ganhou este ano o prêmio de roteiro em Berlim.

Prêmio de roteiro para um documentário? É verdade que Botão de Pérola, como Nostalgia da Luz, é muito mais um ensaio poético, uma investigação sobre a linguagem – e o tempo, e a grande História – no formato de docu-drama. Como possui um texto lindíssimo, o júri achou que faria bem lhe outorgando o premio de roteiro. Foi pouco. Botão merecia o Urso de Ouro, e nada menos. O filme investiga o mar e os primitivos habitantes indígenas no litoral chileno para chegar, através do botão do título, à discussão sobre a ditadura militar. O golpe do General Pinochet é o tema central da obra de Guzmán. Nostalgia parte das estrelas e ao longo de uma viagem tão sinuosa quanto fascinante chega ao deserto do Atacama, o lugar mais seco da Terra. Por isso mesmo, a visibilidade que se tem do espaço, dali, é maior do que em qualquer outro lugar. Astrônomos usam o deserto do Atacama para construir suas engenhocas e investigar o espaço. Mas, no Atacama, mulheres – mães, esposas – também escavam o deserto em busca de seus mortos, vítimas da ditadura. O filme junta as duas pontas. É um segredo que o cinema de Guzmán possui e que sua poética torna palpável. Um grande filme./ L.C.M.

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