Nosso mestre-açu Acê

Já me deparei com ótimos conversadores - nenhum deles à altura de Antonio Candido

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

16 Maio 2017 | 02h00

Éramos quantos?, uns 80 convidados, vindos do Rio, de São Paulo e outros pontos do País, e estávamos a caminho de Havana - o que, naquela altura, novembro de 1985, não era uma aventura simples: como ainda não tinham sido restabelecidas as relações com Cuba, cortadas em seguida ao golpe de 1964, lá não se chegava sem enviesada maratona. Em vez de subir rumo ao Caribe, tivemos que tomar o rumo oposto, descendo até Buenos Aires, onde, após pernoite, pegaríamos um picotado voo da Cubana: antes de pousar no aeroporto de José Martí, faríamos escala em Lima, para nos munirmos de salvo-conduto, pois em nossos passaportes ainda se lia “Não é válido para Cuba”, e na Cidade do Panamá, para que o idoso Ilyushin II bebesse um pouco mais de querosene.

Tão logo chegamos para embarque no aeroporto de Ezeiza, em Buenos Aires, fomos informados de que o avião da Cubana - na minha preconceituosa imaginação, tão russo quanto ruço - tinha problemas, e que resolvê-los custaria atraso na partida. Quanto tempo?, perguntou alguém no grupo - composto, entre outros, por Antonio Candido, Chico Buarque, Maitê Proença, Caio Graco Prado, Chico Caruso, Bresser Pereira, Adélia Prado, Roberto D’Avila, Affonso Romano de Sant’Anna e o atacante Reinaldo, do Atlético Mineiro. 

Quando disseram que teríamos de esperar “unas ocho horas”, julguei ter recebido o aviso de que convinha abortar a aventura e retornar a São Paulo, ainda mais que estava, naqueles dias, em meio a espessa crise pessoal. E já encostava no balcão da Varig quando por ali passou Antonio Candido, tomou-me pelo braço e, sorridente, propôs um café. Quando dei por mim, oito horas tinham voado e lá estava eu a bordo do Ilyushin da Cubana de Aviación, prestes a decolar.

E eis que, com três parágrafos de atraso, finalmente pouso no assunto que me trouxe aqui: se não vi passar o tempo, e se deixei em terra meu excesso de má bagagem emocional, foi por ter sido docemente sequestrado pelo papo bom de Antonio Candido - de longe, o melhor conversador com que já me deparei. Páreo duro com seu amigo Otto Lara Resende, e é pena, aliás, que eu jamais tenha tido a sorte de testemunhar um encontro desses campeões também da prosa oral.

 

Em compensação, pude presenciar em Havana um reencontro de Antonio Candido com outro amigo, da mesma extração mineira, o poeta e psicanalista Hélio Pellegrino, que, convidado de honra de Fidel, viera em outro avião e se hospedava, não em hotel, como todos nós, mas naquilo que, hiperbólico, ele nos descreveu como sendo uma “datcha”, as mansões que, na União Soviética, antecipavam para uns poucos o que se imaginava ser o tal Milênio Socialista. 

Hélio tinha ido visitar o Hospital de Psiquiatria de Havana - e, tantos anos depois, ainda posso ouvir as gargalhadas de Antonio Candido quando o amigo nos contou que os doidos cubanos talvez fossem, em todo o mundo, os únicos em sua categoria que, ao pintar, maneiravam os delírios criativos e vestiam a camisa de força do realismo socialista. 

Entre muitas outras coisas boas, para mim ficou, pois, de Antonio Candido, o causeur maravilhoso que ele foi, dono de uma conversa que, mesmo quando se esgalhava em aliases, tinha sempre um fio saboroso, tobogã verbal em que o ouvinte deslizava, em estado de boquiaberto encantamento.

Comigo e com outros, várias vezes o vi enveredar pelos meandros da genealogia, escarafunchar as raízes de quem o escutava, não raro na descoberta de insuspeitados parentescos entre si e o embevecido interlocutor. Com um saber jamais dissociado do sabor, esse homem que o discípulo Roberto Schwartz chamou de “mestre-açu Acê” era um inigualável contador de histórias, capaz de desfiar enredos a que nunca faltava bom humor, e, frequentemente, histrionismo, na forma de imitações impecáveis e de canções entoadas com a voz de quem, possuidor de tantos talentos, poderia, quem sabe, ter sido também um bom cantor.

De Antonio Candido me ficou, ainda, a lembrança de um intelectual generoso, capaz de espalhar luzes sem mesquinharia nem semostração. Nesse particular, tive o privilégio incomparável de que ele, a pedido de Antonio Fernando De Franceschi, 25 anos atrás, lesse e ajudasse a remediar cochilos nos originais de um livro meu, O Desatino da Rapaziada. 

Era possuidor, também, de não menos rara humildade, da qual, entre muitas ilustrações, me vem agora um mea-culpa que julgou necessário fazer a Murilo Rubião. Quando publicou Os Dragões e Outros Contos, em 1965, Murilo recebeu carta em que Antonio Candido se penitenciava por não haver bem antes, em 1947, no lançamento de O Ex-Mágico, feito justiça inteira ao já grande contista que estreava em livro. 

Não ficou nisso. Foi por instigação de Antonio Candido que Jorge Schwartz veio a mergulhar na obra do escritor mineiro, à qual dedicou um estudo que abriu caminho para que Murilo, até então escassamente conhecido, se convertesse em best-seller - no caso, algo tão surpreendente quanto os enredos de seus contos - quando, em meados da década de 1970, O Pirotécnico Zacarias vendeu 100 mil exemplares em pouco mais de um ano. Muito próximo que fui de Murilo Rubião, sou testemunha da enorme e comovida gratidão que ele, como tantos de nós, tinha por essa extraordinária criatura que acabamos de perder. 

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