Nós quem?

NOVA YORK - O cenário era belíssimo, uma casa de fim de semana em Long Island. Caí de paraquedas numa festa, levada por uma convidada da anfitriã, matriarca de uma família abastada de Nova York. Sem saber - e pouco se importando - em descobrir quem eu era, ela desabafou em voz alta: "Ainda bem que não vieram jornalistas. Eles são tão sujos". Não contive uma gargalhada discreta, um privilégio que ela parecia não ter mais, com seu rosto imobilizado por cirurgiões plásticos.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

09 Junho 2014 | 04h09

A pessoa que me levou ficou mortificada e se preocupou, sinceramente, com o meu desconforto. Que era nenhum. Minha reação, uma vez que a opinião da socialite não respingou na minha pessoa asseada, foi evitar seu constrangimento e pedir que não lhe revelassem o meu ganha-pão.

Não arrasto comigo uma categoria profissional, uma identidade corporativa, como uma longa cauda de vestido de noiva. Porcaria e maravilha não fazem discriminação na medicina, na engenharia ou no jornalismo.

Defendo minha atividade como necessária à democracia, denuncio quando jornalistas são censurados, presos, mortos, mas não ponho a mão no fogo por nenhum estranho só porque ele se diz membro de uma profissão. E costumava encolher, defensiva, quando era chamada de "coleguinha" em reuniões de sindicato.

O incidente na festa aconteceu há uns 15 anos, mas a cena me voltou à memória na semana passada. Leitoras que se declararam representantes de uma categoria - a de organizadores profissionais - se sentiram insultadas porque descrevi a atividade, tal como a testemunhei em Manhattan, como "uma pérola de charlatanismo". Eu me referia a pessoas que cobram US$ 125 por hora para arrumar o closet, gavetas e estantes de gente como um conhecido meu, que mora num conjugado. Reconheço que ele fica pior na foto por ter desperdiçado dinheiro terceirizando sua vida pessoal. Minha insensibilidade foi recebida com longas explicações, entre elas o fato de que 300 organizadores profissionais se encontraram em São Paulo para debater a defesa de sua categoria. Tentei explicar que não estava insultando as leitoras mesmo por que desconhecia a existência de tal agrupamento corporativo no Brasil, agrupamento que há de ser composto por pessoas idôneas e nem tanto, como a sociedade em geral.

Se tivesse usado "frivolidade" e não "charlatanismo" a indignação teria sido menor? Não sei. Como expliquei a uma leitora gentil: Um cirurgião plástico que continua a operar uma cliente insegura e progressivamente deformada pode não estar violando nenhum código de seu Conselho Regional de Medicina. Mas, aqui neste canto opinativo, ele é um vocês sabem o quê. Lembrei da cena na festa quando me pediram para "me retratar" pela opinião que expressei. Não só lamento como não questiono a sinceridade da mágoa de quem fez a sugestão. E não duvidem da minha surpresa.

O Brasil que eu deixei era um país autoritário, em transição para um governo civil. O Brasil que reencontro hoje é uma democracia constitucional, mas, além de importar a categoria de organizadores profissionais dos Estados Unidos, importou também uma forma peculiar de autoritarismo cultural marcado pela vitimização e extrema litigiosidade. Vivemos uma espécie de embotamento cívico sob o qual somos tão vulneráveis que uma opinião sobre ter seu armário arrumado por estranhos requer retratação. É um mal-estar só aplacado por corporativismo e unguentos governamentais.

Reconheço este Brasil no país que produziu o Decreto 8243. A presidente Dilma Rousseff viu por bem criar uma nova casta na sociedade brasileira. Não contente com a Constituição, os três poderes e o exercício do voto, a presidente, de uma só canetada, nos separou. Agora há a turma da arquibancada e uma tal sociedade civil que vai ganhar camarotes no Executivo. Numa linguagem que é um modelo de contorção semântica, o decreto define grupelhos para dialogar com o governo. Gente não eleita que não me representa.

Como bem explicou o acadêmico Oliveiros Ferreira num excelente artigo neste jornal, o decreto invade também o território da Justiça, atribuindo a "mesas de diálogo" a função de prevenir, mediar e solucionar conflitos sociais. O governo vai escolher os frequentadores dos camarotes para avançar o espetáculo de "políticas públicas". Quem achava que seu título de eleitor bastava para a participação democrática acordou no dia 24 de maio como membro de uma casta inferior, os que não entraram para o clube da "sociedade civil".

Nem vou entrar aqui na questão de se tratar de uma iniciativa que propicia a perpetuação de apparatchniks na máquina governamental. Mas a falta de indignação inicial com o decreto me pareceu afinada com o embotamento cívico em que enfraquecemos nosso poder individual. Delegar a arrumação do closet a terceiros pode ser uma frivolidade. Mas terceirizar o exercício da democracia constitucional é uma temeridade.

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