Nos cinemas, o mundo imperfeito visto por dois poetas

Chega às salas do País o filme Cão sem Dono, de Beto Brant e Renato Ciasca

Agencia Estado

07 Junho 2014 | 17h54

Há uma precariedade do afeto no cinema de Beto Brant. Seus primeiros filmes se constroem nos tempos fortes da ação - Os Matadores e Ação entre Amigos -, mas, a partir de O Invasor, algo ocorre. É o filme que faz a passagem para um cinema mais intimista. Temas de O Invasor são levados para Crime Delicado e, independentemente de gostar-se ou não daquele longa do diretor, ele foi decisivo para que Brant chegasse a agora a Cão sem Dono. O filme, adaptado do livro de Daniel Galera, estréia nesta sexta-feira, 15. É ótimo. Brant, co-dirigindo com Renato Ciasca, fala de maneira não conclusiva sobre relações e sentimentos. Uma dupla excepcional de atores - Julio Andrade e Tainá Müller - faz o casal principal, Ciro e Marcela. Tainá foi melhor atriz no Cine PE, onde Cão sem Dono também foi considerado o melhor filme. Ciro é tradutor de russo. Marcela é sua namorada. Sua relação expressa o mal-estar da juventude. Há um cachorro de rua, sem nome, na trama, mas o cão sem dono é o próprio Ciro. Você poderia cobrar linearidade, uma bula de comportamentos para entender as reações dos personagens. É o que, cada vez mais, o mercado exige dos diretores. O filme é para ser consumido com muita pipoca e refrigerante, o ideal - segundo o mercado - é que o espectador, sem tempo, não fique com nenhuma dúvida. Em Beijos Proibidos, François Truffaut usou seu alter ego, Antoine Doinel, para discutir se o amor deve ser provisório ou definitivo. Brant e Ciasca têm claro o próprio trabalho - "Só resta aos poetas falar das imperfeições do mundo." A seguir, divididas em tópicos, as respostas dos diretores às questões propostas pelo Estado. Preparação de atores "Quando escalamos o elenco, estamos atrás de alguém que nos possa trazer algo mais que ainda não se encontra no roteiro. Em alguns casos não são atores profissionais, mas que possuem uma evidente alma de artista. Era o caso de Paulo Miklos em O Invasor e, agora, no Cão sem Dono, do Luiz Carlos Coelho, artista plástico que faz o papel do porteiro do prédio. Nas três semanas que antecederam a filmagem, ensaiamos com os atores nas locações. Nossa intenção era fazer com que encontrassem os personagens. Não queríamos nos prender aos diálogos do roteiro e contamos com a surpresa que o universo dos atores gaúchos poderia nos oferecer. Reinventamos o roteiro a partir dessa vivência." Temas "No texto do Galera já existia a referência à perna machucada da menina. Está num contexto apenas episódico e, portanto, não tem nada a ver com Crime Delicado. Foi pura coincidência. O que o filme herdou de Crime Delicado é o personagem masculino. Nos dois, os personagens filtram a sua experiência de vida pela razão, seja a literatura ou o teatro. Encaram a vida na terceira pessoa e, por um golpe do destino, uma punhalada no coração, são obrigados a encarar as próprias emoções." Porto Alegre "Ignorar a cidade seria ignorar algo que é essencial no livro. Escolhemos o filme inclusive por isso." Co-direção "Nós nos conhecemos há 25 anos, desde o primeiro curta que dirigimos e produzimos juntos. Tem sido uma longa estrada. Nesse filme, as condições eram muito favoráveis para esse reencontro na direção."

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