Reuters
Reuters

Nobel made in China

Visto como dócil ao regime, Mo Yan foi o escolhido para receber a honraria literária, sob críticas de artistas perseguidos em seu país

Cláudia Trevisan, Correspondente/Pequim

12 Outubro 2012 | 14h16

O vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2012, anunciado ontem em Estocolmo, nasceu em uma vila rural do nordeste da China, deixou a escola depois de completar o primário e começou a escrever quando era soldado do Exército de Libertação Popular. Como muitos chineses de sua geração, Mo Yan, 57, viu sua trajetória pessoal ser entrelaçada aos dramas históricos que povoaram o país sob o maoismo.

A academia sueca o descreveu como um escritor que usa um “realismo alucinatório” para fundir “contos populares, a história e o contemporâneo”. Entre os mais traduzidos autores chineses, Mo Yan se diz influenciado por William Faulkner e Gabriel García Márquez, com quem compartilha a estética do realismo fantástico. Como o colombiano, o chinês também tem sua “Macondo” e ela se chama Gaomi, na província de Shandong onde ele nasceu em uma família de camponeses.

Foi lá que o escritor recebeu a notícia da premiação, na casa onde vive com a mulher, Du Qinlan, e seu pai de 90 anos. “O mais importante para um autor é o trabalho e não os prêmios”, disse, durante entrevista coletiva em um hotel da cidade. “Eu quero agradecer à minha terra e a meus companheiros porque, sem eles, eu não seria o que sou.”

Em declaração ao Comitê do Prêmio Nobel, ele se disse surpreso com a escolha. “A literatura é a mais poderosa e livre forma de expressar minha opinião. Eu quero mudar a mim mesmo e a meu destino por meio da escrita.” Apesar do US$ 1,2 milhão que receberá, Mo Yan falou que não havia o que celebrar. “Vou fazer jiaozi (um ravioli chinês) com minha família amanhã à noite, é meu prato favorito.”

Já o artista plástico chinês Ai Wei Wei, que foi detido pelo governo da China em 2011 e passou 81 dias na prisão, disse ontem que “dar este prêmio a um escritor que conscientemente se dissociou das lutas políticas da China de hoje é quase intolerável”. 

O nome real do escritor é Guan Moye. O pseudônimo Mo Yan significa em chinês “não fale” e é uma referência à ordem que recebia dos pais durante os anos de confronto político da Revolução Cultural (1966-1976), quando pessoas ou famílias inteiras podiam cair em desgraça por mostrar simpatias vistas como equivocadas pelos poderosos.

Mo Yan tinha 12 anos quando foi obrigado a deixar a escola para trabalhar no campo e, mais tarde, em uma fábrica de óleo. Aos 20 anos ele entrou no Exército de Libertação Popular. Seu primeiro conto foi publicado em um jornal literário em 1981 e seu primeiro romance saiu em 1986.

A obra mais conhecida de Mo Yan no Brasil é provavelmente Sorgo Vermelho, graças à adaptação para o cinema feita em 1987 por Zhang Yimou. Ambientado na zona rural, o livro narra 40 anos de história do país, a partir da invasão japonesa nos anos 30, tendo como personagem principal uma garota pobre dada em um casamento a um homem mais velho e leproso. O grande épico de Mo Yan é Seios Fartos e Quadris Largos, de 1995, que ficou proibido na China por um período de cinco anos. Em um país de forte tradição patriarcal, a obra é uma celebração da figura feminina. 

Das memórias de infância de um morador de sua vila rural, Mo Yan moldou o personagem principal de Cansado de Viver, Farto da Morte. Lan Lian é um camponês que se recusa a aderir às comunas maoistas nos anos 60 e continua a cultivar seu pedaço de terra. Cada vez mais solitário e vítima de ataques violentos na Revolução Cultural, Lan acaba se enforcando.

Mais conteúdo sobre:
Mo Yan Nobel Literatura

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.