No vale dos reis

Um milagre acontece, e Elvis Presley se materializa em carne, osso e alma

JULIO MARIA, O Estado de S.Paulo

13 Outubro 2012 | 03h09

Sua pele está uma seda para alguém morto há 35 anos. A voz é firme, o topete nunca desaba e os quadris vibram com uma sensualidade de levantar paróquias. Depois de ajustar a capa e apertar as botas, Elvis caminha pelo corredor, atravessa a cortina que dá acesso ao palco e surge diante de 6 mil pessoas absortas e incrédulas. Joga beijos para as fãs e dá o sinal para que sua banda comece com o blues See See Rider. Seu primeiro show no Brasil, afinal, deve ser à altura da euforia com que é recebido desde que colocou os pés no País para uma temporada de três noites no Ginásio do Ibirapuera e uma despedida, hoje, no Via Funchal. Casas lotadas para ver um homem que o mundo se nega a sepultar.

A ideia da experiência metafísica, com a imagem de Elvis em um telão para que seja acompanhado por sua banda ao vivo, suscita desconfianças. Seriam os respeitáveis senhores que lideram o projeto Elvis In Concert - músicos irrepreensíveis que tocaram com Elvis nos anos 70 - homens falidos em busca de um cascalho para viverem suas aposentadorias no Havaí? Que heresia é essa recolocar Elvis na estrada à revelia do próprio Elvis? E por aí o pensamento vai até que Elvis surge como um Lázaro da Bíblia. A grande cortina que cobre a frente do palco cai e uma tela gigantesca de definição estonteante mostra o cantor esbanjando saúde, sobretudo em shows feitos entre 1970 e 1974, enquanto dois telões menores captam imagens de um palco habitado por 16 músicos, dentre eles o guitarrista 'original' James Burton, o baterista 'original' Ron Tutt e o pianista 'original' Glen Hardin, além de uma seção de violinos e metais 'não originais' conduzidos pelo maestro 'original' Joe Guercio. Os escudeiros de Elvis tocam ao vivo para um Elvis que está ali, mas que não está ali. As resistências vão caindo e quatro ou cinco músicas depois do início, por volta de That's All Right ou You Gave Me a Mountain, o milagre acontece e faz tudo virar uma coisa só.

Os olhos querem achar no palco o homem que aparece no telão e as palmas redobram as forças para reconhecer a performance de um Elvis vivo. As mulheres ainda o querem e gritam "gostoso" durante Heartbreak Hotel. Os homens ao seu lado não ligam, talvez pela única traição com a qual consentiriam em paz. Elvis parece ouvi-las. Vai à beira do palco e beija uma a uma sempre na boca. Quando percebe que a próxima não tem nem 15 anos de idade, oferece o rosto. A menina chora. Outra se aproxima e apenas segura em sua mão, quando é tomada por um desespero incontrolável. E uma outra o agarra com uma força que ele não quer vencer. Entregue, Elvis só falta deixar que lhe tirem a roupa. Os gritos na plateia ficam mais altos.

Os homens só não se manifestam como as mulheres porque têm reputações a zelar. Eram garotos quando tudo começou. Muitos ali conheceram seus amores ao som de My Way, se casaram com Love me Tender, criaram bandas de quintal para tocar Blue Suede Shoes por toda a vida e batizaram seus pequenos de Elvis. Hoje, podem ver o ídolo ao lado dos filhos e dos netos apontando para os solos da guitarra de Burton e comentando sobre a sincronia perfeita de uma banda que, no presente, consegue tocar o passado com uma precisão rítmica futurística. E ainda voltar para casa com moral, dizendo aos moleques como o rock and roll tinha muito mais sangue nas veias.

"Mas Elvis não está vivo?", perguntaria o filho, tentando pegar o ato falho do pai. E então, a melhor resposta seria reconhecer que, na verdade e por mais que todos ali quisessem o contrário, não. Elvis está morto e enterrado desde 1977, algo que o poupou de fazer as barbeiragens dos vivos e o permitiu se tornar lenda. A ponto de, um dia, ser ressuscitado.

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