Marcelo Sayao/EFE
Marcelo Sayao/EFE

No Festival do Rio, Léos Carax fala de 'Holy Motors'

O novo longa do cineasta francês também foi apresentado em Cannes e já virou cult

LUIZ CARLOS MERTEN - O Estado de S.Paulo,

04 Outubro 2012 | 03h10

RIO - Faça a fama e relaxe – Léos Carax que o diga. O autor francês tem fama de gênio, bizarro, intratável. Em maio, não deu entrevistas em Cannes, delegando a seu ator fetiche Denis Lavant, a responsabilidade de debater Holy Motors com a imprensa mundial. O filme integra a programação do Festival do Rio. Será distribuído no Brasil pela Imovision, que promete a estreia para o dia 19 deste mês. Léos Carax veio prestigiar a apresentação. Deu entrevistas (poucas). Quem esperava um monstro, surpreendeu-se. Encontrou um sujeito tão afável e gentil que lembraria M. Hulot, se o físico não fosse tão franzino.

Por que o Rio, e não Cannes?

A França é minha casa, há sempre pressão, cobrança. Não trabalho nenhuma imagem minha, mas as próprias dificuldades da minha carreira levam o público e a imprensa a tecerem fantasias. Some-se a isso o fato de que Holy Motors saiu mais bizarro do que imaginava e eu preferi me resguardar. Quanto ao Brasil... Sempre quis conhecer a América do Sul. É a minha primeira vez nesta parte do mundo. O Brasil enche nosso imaginário de europeus com sol, praias.

O que você quer dizer com 'o filme ficou mais bizarro do que imaginava'?

Estava há 13 anos sem fazer um longa, desde Pola X. Há uns dois anos, quase iniciei um filme em Londres, mas tive de cancelar porque não consegui achar os atores certos. Os atores são sempre o tormento do meu cinema, com exceção de Denis Lavant, que me acompanha há muito tempo. Como encontrar o ator e a atriz certos, como trabalhar com eles? Estava num momento de inércia quando a ideia de Holy Motors surgiu. A limusine deveria ser a estrela do filme. Comecei a tecer as histórias, partindo de Denis (Lavant) e apostando que ele seria capaz de criar os diferentes papéis que imaginava para ele.

A definição mais frequente para Holy Motors é que é surreal. Concorda?

Como não me policiei ao escrever e filmar as histórias de Holy Motors, elas só podem ter surgido do meu inconsciente, do meu imaginário. Quis fazer o filme com o máximo de liberdade possível, o que já é um desafio no mundo atual. Já vi interpretações de que Holy Motors é uma metáfora do cinema. Não sei como, nem onde. Mas sua linguagem é de cinema, como se estivesse experimentando, e estou, tentando levar o cinema ao limite, sem os efeitos que caracterizam Hollywood. O filme, para mim, é uma afirmação de vida. Temos uma expressão para isso na França - a faca no pescoço. É como se eu, e os personagens refletem isso, estivesse com a faca no pescoço e desse um salto no vazio, para afirmar a vida. Como um trapezista. Poderia ter saído errado, parece ter dado certo.

Você criou todos esses papéis para Denis (Lavant) em Holy Motors. Ele começa como M. Oscar, ao entrar na limusine, e depois vai se metamorfoseando. Como foi criar todos esses personagens?

Foi um desafio para ele, e para mim. Quando comecei a trabalhar com Denis, em Boys Meets Girl e, depois, em Sangue Ruim e Os Amantes do Pont Neuf, ele era mais jovem, tinha uma versatilidade física incrível. Eu poderia lhe pedir não importa que acrobacia, e ele a faria com desenvoltura. Mas Denis, se era bom do ponto de vista físico, não era bom para expressar sentimentos e eu até me beneficiei disso. Os Amantes do Pont Neuf é sobre a irreversibilidade do amor, da vida. É sobre a dificuldade de transcender, de se comunicar. Com o tempo, Denis adquiriu essa capacidade. Resolvi explorá-la, mas havia personagens que eu temia que ele não pudesse fazer. Deu certo.

Um dos personagens é Merda, que surgiu no episódio que você fez para Tokyo. Merda é transgressor, antissocial, antitudo. O sucesso do personagem o surpreende?

Sim e não. Ele é desagradável, fisicamente. Representa uma figura que você gostaria de evitar na rua e ao mesmo tempo há o fascínio de alguém que manda à merda todo esse mundo em que vivemos. Nesse sentido, Merda virou o mais simbólico de meus personagens. Ele é uma metáfora em si mesmo.

Elliott, Jean-Luc Godard, Jacques Démy, David Lynch - o filme é um compêndio de citações e referências, segundo os críticos. Você pensou neles todos?

E você nem me citou. Tem gente que vê esse filme como súmula dos meus anteriores. Quando cheguei a Paris, anos atrás, era um jovem cinéfilo que via tudo, querendo absorver as lições dos grandes mestres e querendo descobrir quem eram os meus mestres. Hoje não vou mais a cinema, não tenho paciência, prefiro rever meus clássicos em casa. Mas fui ver Cosmópolis nas salas, em Paris.

E o que você achou do filme, que também estava em Cannes e se passa em outra limusine?

Sabia do livro de Don DeLillo, mas não sabia que a limusine seria tão onipresente no filme de Cronenberg. Gostei das imagens, que são fortes. Gostei de alguns personagens e situações, mas ele (Cronenberg) se prende muito às falas de Don e isso não é bom, por mais que se trate de um autor ligado às complexidades da linguagem.

Em Paris, passei várias vezes pelo prédio da Samaritaine e sempre pensei como seria a vista lá de cima. Por que você situa ali aquela cena tão importante?

Como você, adoro passear no Sena. Sou muito atraído pelas pontes, e fiz Os Amantes para expressar meu amor pelo Pont Neuf. A Samaritaine era uma loja tradicional, vai virar um hotel de luxo. Achei que poderia resgatar um cartão-postal de Paris que vai desaparecer. A cidade sempre se integra ao meu cinema. Quando fui a Tóquio, foi a mesma coisa. Não consigo filmar num local apenas por filmar. Tem de ter um significado.

Um filme como Holy Motors, em episódios, tem espaço para a improvisação?

Definitivamente, não. Não sou de improvisar, nunca fui. Por isso mesmo, às vezes é tão difícil achar o elenco para meus filmes. Porque os atores têm de encarnar os personagens. Não digo apenas que têm de ser convincentes nas falas. Denis tem personagens que são silenciosos em Holy Motors. Kylie canta. As coisas são programadas assim, e assim têm de ser.

O diretor brasileiro Walter Salles ama Sangue Ruim e no outro dia, aqui no Festival do Rio, Valeria Faris, codiretora de Ruby Sparks - A Namorada Ideal, me disse que Pola X é um dos filmes da vida dela. É um dos filmes da minha vida, também, embora só o tenha visto uma vez, em Cannes. Como você reage a esses elogios, ao saber que virou cult?

Dou-me conta de que estou ficando velho. Mas não é ruim. Pola X foi um filme pouco visto, mas muita gente me fala dele. Já falei da minha dificuldade para encontrar atores. Guillaume Depardieu foi extraordinário. Quando o encontrei, vi que conseguiria fazer o filme do jeito que queria. Estou velho, ele morreu jovem. A vida tem esses paradoxos.

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