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Nelson Rockefeller, o amigo americano do Brasil nos anos 60

da Redação - estadao.com.br

26 Julho 2008 | 17h 44

Biografia inédita será lançada no centenário do político e empresário, pelo historiador Antonio Pedro Tota

No ano do centenário de Nelson Rockefeller, o historiador Antonio Pedro Tota, que prepara livro sobre o político e empresário americano, relembra sua relação com o Brasil como enviado especial do governo dos Estados Unidos nos anos 60.   Veja também: Galeria de imagens da vida de Rockefeller   O portal estadao.com.br publica textos inéditos desta pesquisa, baseada em consulta aos acervos do Rockefeller Archive Center e do National Archive Builind, em Washington D.C., e que vai se transformar no livro Rockefeller: O Conquistador do Brasil, com cerca de 400 páginas. Seu lançamento está previsto para meados do ano que vem. Tota é autor de Imperialismo Sedutor - A Americanização do Brasil Na Época da Segunda Guerra.   Confira oito trechos do livro Rockefeller, o conquistador do Brasil:   1. "GO HOME foram as primeiras palavras que o spray de um jovem estudante de história da Universidade de São Paulo grafou, em letras cursivas, no grande muro do outeiro da Igreja do Calvário, na Rua Cardeal Arcoverde, no bairro paulistano de Pinheiros. Era uma fria madrugada de junho de 1969. ROCKFELLER foi a outra palavra que completava a frase pichada. As pichações faziam parte de um ato de protesto contra a presença de Nelson Rockefeller no Brasil. A grafia errada - faltava a letra e depois do k - demonstrava o pouco conhecimento que se tinha do personagem que estava no país. O estudante fazia parte de um grupo ligado ao Partido Comunista, o Partidão, cuja tarefa era protestar, com pichações, contra a presença do "representante maior" do imperialismo ianque."   2. "Na madrugada de 28 de novembro de 1944, o submarino alemão U-1230 começou a subir das águas turvas da baía Frenchman do estado do Maine no extremo norte da costa atlântica dos Estados Unidos. O comandante emergiu o suficiente para acionar o periscópio. Confirmou sua localização graças ao farol de uma península próxima de Seal Harbour, centro de veraneio da aristocracia americana da costa leste. Navegavam nas águas profundas nas proximidades da ilha Mont Desert. A tripulação não falava. Os alemães temiam ser detectados por algum sonar das Forças Armadas americanas. A missão era desembarcar dois espiões, um deles era de origem americana."   3. "O americano e o alemão estavam um pouco nervosos quando o submarino emergiu na noite. Os dois, em roupas civis, pegaram suas bagagens e pularam para o bote inflável que a tripulação tinha amarrado na proa. Embarcaram com certa dificuldade e rumaram para a praia. Sessenta mil dólares (uma fortuna para a época), munição, duas pistolas Colt automáticas calibre 32, cem pedras de diamante, dois vidros de tinta invisível, uma câmara Leica, uma muda de roupas. Era a bagagem dos dois espiões a serviço da agonizante Alemanha nazista."   4. "Os dois tomaram todo o cuidado ao chegar à praia de Crabtree Neck, vilazinha habitada por poucas famílias de pescadores. O bote de borracha foi puxado de volta para o submarino que fez meia volta, tomou rumo leste e sumiu na escuridão do Atlântico Norte.   Calepaugh e Gimpel conseguiram pegar um táxi e, em meio à neve que caía, chegaram na estação de Bangor, cidade no coração do estado do Maine. Tomaram um trem, rumaram para Boston e de lá para Nova York. Encontraram a cidade se preparando para o Natal. Para Calepaugh, o cenário era familiar, parecia estar matando saudades de casa. Para Gimpel, as luzes, a grande árvore de natal iluminada do Rockefeller Plaza, a pista de patinação, as roupas coloridas e a exuberância da América causaram impacto."   5. "Compraram também um rádio que Gimpel deveria transformar num aparelho transmissor e alugaram um studio numa casa onde seria montado o quartel general da espionagem. Em algum momento entre as diversas atividades dos dois espiões, o americano William Calepaugh sofreu uma crise de consciência: não queria mais a vitória da Alemanha. Não imaginava o fim da América da liberdade e, principalmente, o fim da América da abundância. Conseguiu despistar o alemão e entregou-se à polícia federal americana, o FBI. Calepaugh passou parte do dia do natal de 1944 falando aos investigadores. Dois dias depois, Erich Gimpel foi localizado, preso, contou tudo o que sabia."   6. "A investigação do FBI descobriu que Erich Gimpel tinha uma estranha mensagem escrita de uma certa "Frau Haeff" dirigida à sua filha que estava na América. Até aí nada de muito estranho, havia muitos alemães e descendentes de alemães nos Estados Unidos e o correio entre a Alemanha e a América era quase inexistente.   O problema era que a destinatária, isto é, a filha da senhora Haeff, carregava o sobrenome do chefe de governo de um país-chave nas relações entre os Estados Unidos e a América Latina. Tratava-se de Ingeborg Anna Elizabeth Tenn Haeff Vargas, nora do presidente Getúlio Vargas."   7. "A calma do vôo entre Port of Spain e Belém foi quebrada quando o avião se aproximou do equador. Tripulantes e passageiros de navios costumavam comemorar a travessia da linha que divide o hemisfério norte do sul. E foi o que aconteceu no "navio voador" da PanAm. O menu de bordo do Clipper da Pan-American indica que a travessia do equador foi saudada em grande estilo.   O Flying Clipper Ship, do mesmo modelo em que eles vieram de Miami, comandado pelo capitão H. Turner, primeiro oficial aviador, oferecia aos passageiros o Equator-Crossing Dinner in Honor of Jupiter Rex, King of the Heavens, Lord of the Winds (Jantar Cruzando Equador em Honra a Júpiter Rex, Rei dos Firmamentos e Senhor dos Ventos). Recuperação de antigos mitos para saudar a modernidade. A entrada era um Trinidad Fruit Cocktail, depois foram servidos outros pratos como Creme Portugaise, Filet Mignon Orinoco, Potatoes Paranaibo, Suriname Spinach, para sobremesa Flanc au Caramel e Cayene Coffee."   8. "Por intermédio do irmão Wilthrop, Nelson foi ajudado na organização da viagem pelas dicas de William Clayton, presidente da Anderson, Clayton & Co, a gigante do algodão e derivados do Texas. Algum tempo antes da viagem os dois ricos homens de negócios trocaram correspondências. Clayton, conhecedor do sul do continente, deu preciosas informações para enfrentar os trópicos: "Winthrop disse-me que provavelmente vocês não viajarão antes de 1° de abril, pena porque não podemos nos encontrar (...) mas sob o ponto de vista do conforto vocês estão escolhendo a melhor época, pois entre janeiro e março é muito quente lá embaixo."