Neblina irônica

"Os bobos perdem o emprego / Pois os sábios vieram em bando / E como não têm juízo / Vivem nos macaqueando." (O Bobo para o Rei Lear, de William Shakespeare)

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

23 Junho 2014 | 02h06

Um estudo acaba de revelar que, durante a eleição presidencial americana de 2012, os americanos mais bem informados sobre o financiamento de campanhas eram os espectadores de um comediante. A campanha de 2012 foi a primeira depois de uma decisão da Suprema Corte que escancarou a porta para o financiamento espúrio de eleições. O comediante é Stephen Colbert, que faz o papel de um conservador histriônico, falso âncora da Fox News.

Sempre criativo para expor o extremismo de direita através da ironia, Colbert criou, em 2012, um Super PAC, Comitê de Ação Política, uma espécie de laranja autorizado pela lei eleitoral para despejar dinheiro em causas (leia-se candidaturas). O Colbert ator não apoiava na vida real nenhuma candidatura republicana mas foi o Colbert cidadão que recebeu o dinheiro. Em menos de um ano, o comediante levantou mais de US$ 1 milhão, gastou uma parte com propaganda política e tome ironia: num anúncio atacava Mitt Romney, em outro atacava os anúncios que atacam políticos. Antes de encerrar seu Super PAC, Colbert pegou os US$ 780 mil que sobraram e doou anonimamente para organizações de caridade que apoia para as quais inventou um nome fictício, alfinetando os republicanos.

O que faz sabe-se lá quantos milhares de espectadores doar seu suado dinheiro para um comediante favorito dar uma lição de civismo e decidir por conta própria quem merece receber US$ 780 mil? A resposta é prima de Jon Stewart, Jerry Seinfeld, dos personagens de animação de South Park e um elenco na cultura pós-11 de setembro. Sim, o marco terrorista na história americana que inspirou esta colunista a escrever uma tolice, embora não tenha sido a única a fazê-lo. Na semana seguinte ao ataque, especulei que a enormidade da catástrofe haveria de circunscrever o entretenimento americano e limitar a ironia na cultura popular.

O que vimos foi a ironia chegar a patamares sem precedentes com o público colocando a credibilidade do comediante Jon Stewart, mentor de Colbert e âncora de um falso telejornal, acima da de jornalistas veteranos e de mídias jornalísticas tradicionais. Hoje, um editor amigo me contou desconsolado que um homem culto, de meia-idade, lhe disse que confiava mais em Jon Stewart para se informar do que no New York Times. Ainda que seja meia galhofa, o comentário é sintomático. Pensei neste estado de coisas aqui quando acompanhei com os leitores daí as 24 horas de comentários online que seguiram a publicação de uma falsa entrevista com o técnico Scolari.

Como distraída notória, como alguém que arranca dirigindo com a bolsa no topo e não dentro do carro, serei a última a me declarar imune a barrigas. O que me impressionou foi ver jornalistas e pontificadores na mídia social decidindo por antecipação, sem ter acesso aos fatos, que o incidente se tratava de pura ironia incompreendida. Esta reação espontânea sugere, primeiro, uma ruptura do senso comum - dois grandes jornais publicando intencionalmente uma falsa entrevista com uma piscadela marota no último parágrafo. Sugere também que o leitor fracassou ao não entender o subtexto, de fato, inexistente. E, por fim, resume o temor de levar algo a sério e ser excluído do clube da ironia cool.

Ao ler esta coluna, caro leitor, fique alerta para a possibilidade de que sou uma atriz fazendo papel de colunista. Gostaria de lembrar que a ironia, praticada desde a Antiguidade Clássica, pressupõe uma certa distância aristocrática da realidade e, por conseguinte, do público. A ironia é uma grande arma contra a tirania. Toda a corte se beneficia de um bobo. Mas a ironia como substituta automática para transparência e sinceridade não despe apenas a hipocrisia do rei. Somos nós que ficamos nus.

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