Não por Acaso usa tráfego para tecer metáfora sobre SP

Filme estrelado por Rodrigo Santoro chega nesta sexta às salas de cinema do País

Agencia Estado

07 Junho 2012 | 03h39

Houve um momento em que Philippe Barcinski temeu por seu filme, quando Não por Acaso foi exibido no Festival do Recife, em abril. A presença do astro Rodrigo Santoro provocou um furor nunca visto no Cine PE. Barcinski achou que a platéia não conseguiria se concentrar. Seria desastroso para a carreira de Não por Acaso começar mal justamente num festival que tem a fama de ter o público mais participativo do Brasil. Os espectadores cessaram o tumulto, viajaram nas imagens do filme. Houve outra batalha no dia seguinte. Na coletiva, os críticos bateram duro no excesso de música. Excesso? Barcinski defendeu sua opção. Ele fez duas montagens de Não por Acaso, uma com música e a outra, sem. Na versão sem música, o filme ficava muito frio, cerebral. Com música, ele acha que conseguiu o que queria - realizou um filme que faz a passagem da obsessão pelo controle para a descoberta da emoção. Philippe Barcinski, diretor de curtas premiados e de linguagem inovadora, como Palíndromo, narrado de trás para a frente - como Amnésia, de Christopher Nolan, do qual é contemporâneo (ambos datam de 2001) -, estudou exatas, mais exatamente física, antes de assumir que seu negócio era fazer cinema. Da ciência, trouxe o rigor do método que define seu trabalho como cineasta. É um formalista - como Lina Chamie, um exemplo colhido ao acaso, embora o filme dela, Via Láctea, também se passe no trânsito de São Paulo -, mas não quer ficar preso só à linguagem. Quer que seu cinema reflita o homem, o mundo. Que tenha sentimentos. Para chegar a isso, Barcinski subverte as exatas pela complexidade do comportamento humano. Foi com essa intenção que construiu a história de Não por Acaso, sobre esses dois caras cujas vidas se entrecruzam na cidade grande. Um é controlador de tráfego; o outro é jogador de bilhar. Ambos são obcecados pelo planejamento - do trânsito, das jogadas, da própria vida. Leonardo Medeiros faz o engenheiro de trânsito, Ênio. Rodrigo Santoro é o jogador, Pedro. Um acidente muda a vida dos dois, que têm de lidar com a perda. Ênio perde a mulher, o que, no limite, o aproxima da filha. Pedro também perde a mulher. Quando encontra outra, teme por suas emoções. Perfil Barcinski é carioca, há 15 anos radicado em São Paulo. Fazer um filme sobre - entre outras coisas - o tráfego da maior cidade do Brasil foi uma coisa complicada, mas Barcinski só viu o tamanho da encrenca quando iniciou a filmagem. "Havia feito uma pesquisa extensa e me documentado bastante", ele conta. Foram feitas milhares de fotos da cidade, especialmente da área central, para escolha das locações e ângulos de filmagem. "Não queria cair no documental nem mostrar uma São Paulo que não existe, aquela do miolo do Centro, que parece uma Paris. São Paulo não é como o Rio, aonde você chega e tem de cara o impacto da beleza da paisagem. São Paulo é muito mais feia, mais suja, mas possui uma beleza particular. É uma cidade que apaixona. Há anos tento decifrar o mistério de São Paulo." Não por Acaso é parte desse esforço. Seu maior desafio, ele admite, foi fazer um filme autoral, mas não cifrado, para o entendimento de poucos. Trabalhando com a O2 de Fernando Meirelles, e a empresa produtora e distribuidora Fox, Barcinski não sofreu pressão de nenhuma das empresas para tornar seu filme mais palatável para as grandes platéias. "Eles me ajudaram a resolver os problemas logísticos de uma produção dessa envergadura, me deram sugestões, claro, mas me deixaram à vontade para tomar minhas decisões." O diretor trabalhou em íntima parceria com o fotógrafo e o montador, planejando muitas cenas - de trânsito, de pano verde da sinuca - já pensando nelas na tela. A música foi um caso à parte. Com Ed Cortês, Barcinski criou um tema para cada personagem, recurso sofisticado e que não é freqüente no cinema brasileiro. Leonardo Medeiros foi melhor ator no Recife. Ele fez todo um trabalho de preparação para interpretar Ênio. Medeiros destaca a ética dos controladores de tráfego. "Eles possuem recursos tecnológicos de ponta, câmeras que lhes permitiriam invadir a vida das pessoas, mas não o fazem. Ao mesmo tempo, são tensos, não se alimentam bem e possuem sérios problemas de saúde." Rodrigo Santoro vestiu a pele do personagem. Apenas um plano do filme - aquele que explica a trajetória da bola branca, a grande metáfora de Não por Acaso - é truque no computador. "No início não sabia nem pegar o taco, mas tive um professor genial de sinuca, o Renato da Matta, que resolveu todas as jogadas mirabolantes que o Philippe queria filmar. Renato me deixou no ponto", diz Santoro. "Todas aquelas caçapas são minhas."

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