Na sucursal do inferno

Shoah, documentário sobre o Holocausto, inaugura série lançada hoje no Rio

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

28 Outubro 2012 | 03h14

Um documentário sobre o Holocausto sem imagens das atrocidades cometidas pelos nazistas, mas com testemunhos de sobreviventes judeus, oficiais alemães que estiveram em Treblinka e antissemitas poloneses: Shoah, o polêmico e premiado filme de 9 horas e meia, realizado em 1985 pelo filósofo, escritor e cineasta francês Claude Lanzmann, chega hoje a todas as lojas do Instituto Moreira Salles (IMS) do País, inaugurando uma nova série de DVDs da instituição com curadoria do crítico José Carlos Avellar. Dividido em quatro discos e mais um extra (O Relatório Karski) com o depoimento de Jan Karski, mensageiro do governo polonês no exílio, o box de Shoah será lançado hoje com um debate, às 18h30, no IMS do Rio, do qual participam os cineastas Eduardo Coutinho, Eduardo Escorel e João Moreira Salles.

Como todos os títulos que serão lançados na coleção de DVDs do instituto - documentários, filmes de autor, registros de entrevistas -, Shoah vem acompanhado de um encarte com uma análise crítica do filme. Nele, a professora alemã de cinema Gertrude Koch, de 63 anos, analisa a questão moral de se fazer um filme sobre o Holocausto com sobreviventes da tragédia representando o que haviam passado em suas vidas reais. Essa foi, aliás, a proposta de Lanzmann desde o começo do projeto: que elas não narrassem memórias, mas experimentassem novamente situações que teriam preferido esquecer.

É assim que o filme começa com a imagem de Simon Srebnik (1930-2006) lembrando antigas canções prussianas que foi obrigado a aprender para entretenimento de seus algozes em Chelmno. Na pequena cidade do norte da Polônia, onde os alemães instalaram seu primeiro campo de extermínio, em 1941, matando por asfixia a gás milhares de pessoas, Srebnik, judeu polonês e um de seus sobreviventes, desce o rio que corta a cidade como costumava fazer quando adolescente, numa cena pastoral que contrasta com a violência do relato. Srebnik, aos 13 anos, era obrigado a carregar num barco os ossos não incinerados de outros judeus mortos, triturá-los e jogá-los no rio Ner.

Outro sobrevivente de Chelmno, Mordechal Podchlebnik, é também entrevistado por Lanzmann, que prepara um novo documentário sobre o tema, Le Dernier des Injustes, sobre o rabino austríaco Benjamin Murmelstein, apontado pelo comandante nazista Adolf Eichmann como chefe do conselho que administrava a vida dos prisioneiros do gueto de Theresienstadt. Lanzmann entrevistou Murmelstein na Itália, em 1975, como parte de Shoah, mas não usou seu depoimento. O foco da entrevista, mais uma vez, é a responsabilidade moral dos judeus que, sob as ordens de oficiais nazistas, participavam do cotidiano dos guetos e dos campos mantidos pelos alemães.

Há em Shoah outros sobreviventes cujo papel Lanzmann tenta desvendar, como o checo Filip Müller, prisioneiro de Auschwitz, na época encarregado de conduzir as vítimas às câmaras de gás e de lá retirar seus corpos para incinerá-los. Além dele, Lanzmann grava o testemunho do barbeiro de origem polonesa Abraham Bomba, encarregado de cortar os cabelos de outros judeus em Treblinka antes de serem mortos com gás.

Lanzmann recorre a arquétipos para dividir os depoimentos entre vítimas, algozes e testemunhas. Há um quarto elemento, que não participa da reconstrução visual do cineasta, mas entra como a única voz acadêmica, Raul Hilberg (1926- 2007), historiador e cientista político americano de origem austríaca, conhecido como autor do estudo seminal sobre a "solução final". Lanzmann adere sem resistência aos argumentos de Hilberg sobre a logística do genocídio judeu, mas não recorre a registros escritos ou fotográficos, justificando que não existia material de arquivo capaz de rivalizar com o depoimento dos sobreviventes. Polêmico, afirmou que, mesmo se tivesse em mãos imagens da ação de extermínio em Auschwitz, teria desprezado tais documentos.

Os depoimentos dos algozes beiram o absurdo. O sargento da SS Franz Suchomel (1907 -1979), que passou seis anos na prisão condenado por seus crimes, chega a dizer que não sabia do campo de extermínio em Treblinka até chegar lá. No depoimento, gravado num hotel em Brannau am Inn, ele entoa o hino que os judeus eram obrigados a aprender e cantar logo ao chegar ao campo, filmado com insistência pela câmera de Lanzmann para obrigar o espectador a passar pela sucursal do inferno. As imagens, paradoxalmente, atraem e repelem o olho. A crítica Gertrude Koch questiona, aliás, o modo como Treblinka e Auschwitz se inscrevem na representação estética de Lanzmann. Seria possível o cinema depois do Holocausto? Como representar a "drástica culpa" daqueles que foram poupados? Pelo silêncio. As sequências mais fortes de Shoah são aquelas que mostram a paisagem devastada de Treblinka, um dos cenários dessa tragédia. Nela, o ser humano não marca presença.

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