Na prorrogação

Numa trégua da doença que o levou, Antonio Carlos Viana, contista maior, pôde renovar-se

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

18 Outubro 2016 | 03h00

Quando, poucas semanas atrás, soube que dessa vez lhe restava pouco tempo, Antonio Carlos Viana pareceu entregar os pontos. Nem tanto, na verdade. Rendido à inexorabilidade do literal deadline, teve de renunciar a toda esperança – mas não àquilo que sempre deu sentido a sua vida, a paixão da literatura. Habituado a escrever todos os dias, tinha na gaveta um punhado de contos a caminho, alguns deles, quem sabe, publicáveis. Não era assim, porém, no terreno do complacente mais ou menos, que o escritor sergipano queria a sua arte – e, já sem condições de refiná-los, decidiu destruir os originais.

Quem conheceu Antonio Carlos Viana, falecido na semana passada aos 72 anos, em Aracaju, não terá visto com surpresa esse gesto radical de quem se pautou pelo rigor levado às últimas. Escrever, para ele, era um duro trabalho de enxugar o texto, de modo a que não restasse nada além do essencial. “Às vezes, procuro horas, dias, meses, uma palavra que caiba em determinada frase, só por causa da sonoridade”, contou numa entrevista. “O escritor deve pegar o leitor primeiro pelo ouvido, daí a busca incansável da palavra exata.”

Conheci Antonio há quase 20 anos, num inesquecível encontro em Paris, pela mão de seu filho, André Viana, também ele escritor (e dos bons, como sabe quem leu O Doente, maduro romance de estreia). Dele havia lido, presenteados pelo André, três livros de contos – Brincar de Manja, de 1974, Em Pleno Castigo (1981) e O Meio do Mundo (1993) –, publicados em edições um tanto toscas e, por suas baixas tiragens, praticamente confidenciais.

Encantei-me de imediato por aquelas narrativas carregadas de lirismo, desesperança e humor ácido, e mais ainda pelos quatro livros que viriam na sequência, agora com a caixa de ressonância de uma editora prestigiosa, a Companhia das Letras: O Meio do Mundo e Outros Contos, com seleção e apresentação de Paulo Henriques Britto, Aberto Está o Inferno, Cine Privê e Jeito de Matar Lagartas, os dois últimos premiados pela APCA.

Não se avexe se ainda não tinha ouvido falar deste grande escritor, enfurnado na sua Aracaju natal, depois de andanças pelo Rio de Janeiro, onde foi professor, pelo Rio Grande do Sul, onde fez mestrado em teoria literária, e por Nice, na França, onde se doutorou em literatura comparada com uma tese em que esmiúça as poéticas de Paul Valéry e João Cabral de Melo Neto.

Poderia ter feito carreira das mais notórias como acadêmico. Mas não. A certa altura, quando lecionava no Rio, Antonio Carlos Viana largou situação confortável para ser monogamicamente escritor. “Abri mão de tudo”, contava ele. Tudo mesmo: além de vender o fusquinha, empenhou a máquina de escrever, conformando-se à escrita manual até que pudesse recuperar o instrumento de trabalho.

Recolhido a uma casa da família de Cacilda, sua mulher, em Teresópolis, Antonio ficou dispensado de pagar aluguel e, para as demais despesas, comprou um carrinho de cachorro quente. Entre um freguês e outro, podia ser visto, sentado no meio-fio, a ler Virginia Woolf, Marcel Proust ou Sigmund Freud. Assim, sempre em parceria com Cacilda, ganhou a vida – e também, a hostilidade de um concorrente, vendedor de pastéis na região.

Homem tímido e reservado, de pouquíssimas palavras, Antonio Carlos Viana passaria no final da vida pela dolorosa mas transformadora experiência de um mieloma, câncer da medula descoberto em 2014. Devastado pelo sofrimento, enfrentou a dor suplementar de supor que não daria conta de concluir um novo livro. Socorrido por André e pelo amigo Paulo Henriques Britto, que o ajudaram também com leitura e revisão os contos, terminou Jeito de Matar Lagartas, cujo lançamento a editora se prontificou a antecipar para fevereiro de 2015. “Dos meus livros, este é o mais bem-humorado”, avaliava. “Humor amargo, mas humor.”

A doença lhe daria trégua antes de voltar, com tudo, ano e meio depois, mas o que ocorreu nesse parêntese terá sido pouco menos que um milagre. Sentindo que as forças lhe voltavam, o bicho do mato saiu à luz, tomado de insuspeitada extroversão. “A dor nos faz sentir a urgência da vida”, dizia. Tornou-se habitué no Facebook, onde, aliás, publicou comentários sobre literatura que por certo valeria a pena acrescentar à produção de quem já nos dera, como professor, Roteiro de Redação: Lendo e Argumentando e Guia de Redação: Escreva Melhor, utilíssimos não só para iniciantes.

“Ele era um cara macambúzio, mas, depois da recuperação, queria celebrar a vida”, contou André no dia em que perdeu o pai. Outra coisa não fez Antonio Carlos Viana, serena mas gulosamente, em cada minuto da prorrogação que a morte lhe concedeu.

Mais conteúdo sobre:
Humberto Werneck

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.