Na ficção de Suassuna, a discussão sobre o Brasil real

Nosso crítico já viu toda a microssérie e escreve sobre suas impressões

Agencia Estado

14 Junho 2007 | 17h58

Na abertura de A Pedra do Reino, a microssérie que Luiz Fernando Carvalho adaptou do romance de Ariano Suassuna - que inicia seu projeto Quadrante, devendo ir ao ar de desta terça, 12, a sábado, 16, na Globo -, um amplo movimento de câmera revela a paisagem, o sertão. Um corte e o protagonista, Quaderna, literalmente cai dentro do próprio relato, na pele do velho palhaço que, em sua carroça/palco, abre um grosso livro e dá início à representação de um romance de características especiais. Diante da profusão de imagens e sons, o telespectador poderá pensar que, depois de Hoje É Dia de Maria - Segunda Jornada, Luiz Fernando está voltando, pela segunda vez, ao universo que já abordou de forma tão criativa. Vários elementos podem ser os mesmos, mas ele não se repete. O romance de Ariano Suassuna abre uma janela para que o diretor investigue a própria identidade brasileira, o tema em discussão nas quatro adaptações que compõem o Quadrante. Luiz Fernando não deu apenas uma entrevista para falar sobre seu projeto. Ele também deu ao Grupo Estado o privilégio de ter sido o único a assistir à íntegra de A Pedra do Reino. O livro foi publicado em 1971, em pleno milagre brasileiro, quando a ditadura militar capitalizava a euforia produzida pela vitória da seleção brasileira na Copa do México. Começava ali uma era de consumo que culmina no atual mundo globalizado. Ariano e, agora, Luiz Fernando, vão na contracorrente. Eles acreditam que só o reconhecimento da nossa identidade pode nos fortalecer neste mundo de sonhos tão massificados. O diretor sabe que trilha um caminho particular no audiovisual brasileiro. Não quer ser rotulado de diretor de TV nem de cinema e, principalmente, não quer, sob hipótese nenhuma, que digam que ele faz cinema na TV (e vice-versa). O próprio Luiz Fernando chama sua tentativa de abordagem do universo encantado e labiríntico de Suassuna de organismo audiovisual, dividido em cinco partes que compõem um corpo imperfeito. Alma, tronco, cabeça, membros, coração. Cada um corresponde a um capítulo, do primeiro ao quinto. São três tempos e espaços diferentes. No primeiro, o velho palhaço comanda o espetáculo de rua. No segundo, Quaderna está preso e dá origem ao seu projeto monumental de criar a grande epopéia nordestina (e brasileira). No terceiro, o fio condutor é o inquérito promovido pelo Juiz Corregedor, que vai levar Quaderna à prisão. Todos esses tempos e espaços são interligados pelo assassinato de um grande fazendeiro e pela disputa entre dois de seus filhos, Arésio e Sinésio, pelo espólio. Luiz Fernando põe na tela o linguajar de Ariano. O telespectador precisa ficar atento para não se perder no vaivém das imagens (e da trama). Ficar esperto é preciso. Luiz Fernando Carvalho não propõe só um grande espetáculo barroco para os olhos e ouvidos. Há uma consistente discussão política em "A Pedra do Reino", na qual o Brasil fictício de Ariano tem tudo a ver com o País real.

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