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Música: afinação(e afiação) de instrumentos

JOÃO MARCOS COELHO É JORNALISTA, CRÍTICO MUSICAL, AUTOR DE NO CALOR DA HORA (ALGOL) - O Estado de S.Paulo

07 Julho 2012 | 03h 07

O OFÍCIO DO

COMPOSITOR HOJE

Organizador: Livio Tragtenberg

Editora: Perspectiva

(368 págs., R$ 70)

JOÃO MARCOS COELHO

Mal necessário. É assim que o compositor é visto hoje no Brasil. Compositor sem nenhum adjetivo colado em sua definição - seja erudito/contemporâneo/experimental, popular ou então de música aplicada (trilha para cinema e TV, vinculado a emissoras de rádio, diretor musical e shows de entretenimento, de teatro musical, arranjador para gravações, etc.). "A partir dele toda uma cadeia se abastece gerando capital e trabalho do qual ele pouco participa", escreve Livio Tragtenberg nos Prolegômenos... ao Menos de O Ofício do Compositor Hoje, a primeira panorâmica da profissão no País no século 21. Catorze profissionais, a maioria compositores, aceitaram o desafio de fazer uma (auto)análise reveladora sobre a condição do mais mal-amado dos integrantes da cadeia produtiva da música.

Esta marginalidade não é nova. Antigamente, os pontapés no traseiro eram dados por bispos (como o que Mozart levou do arcebispo Colloredo, de Salzburgo). Hoje, são corporativos, institucionais - mas também doem e são de igual natureza. "O mesmo olhar desconfiado com que um bispo enxergava aquele tipo pouco crédulo, mas habilitado, que compunha o material musical para o ofício da missa", evoca Tragtenberg, "se enxerga nos olhos dos produtores das grandes corporações dos meios de comunicação que gerenciam a indústria musical, ou mesmo as instituições culturais - sejam privadas ou estatais - que também se servem da matéria-prima desse mal necessário, o compositor". E alerta que isso se aplica não apenas "a um determinado campo ou gênero da composição como a música experimental ou popular, mas parece, antes de mais nada, que se trata de uma condição".

A saída, onde estaria a saída, então? Para Tragtenberg, "o que se desenha é um criador/elaborador de conteúdos sonoros que se encaixa nos diferentes formatos e usos do áudio e da música em contextos multimídia, como internet, cinema digital, programas de TV, sonorização de vídeos, audiovisuais, etc.".

Metralhadora giratória, ele trabalha fora dos circuitos convencionais. Para mostrar que o compositor é hoje um animal em extinção no zoológico das belas artes e na sociedade contemporânea, montou em 2011 a jaula estúdio "O gabinete do Dr. Estranho" no Viaduto do Chá, centro de São Paulo. Tragtenberg investe contra as "viúvas da arte" que pensam no "ARTISTA", figura "simplesmente obsoletada pelos fatos e acontecimentos socioculturais dos últimos 30 anos"; denuncia o "hermetismo buscado", que funciona como "cortina de fumaça para um vazio, ou antes, um vácuo conceitual e de aplicabilidade prática, mais do que formulação realmente vital dos materiais envolvidos". E, ao propor o compositor como "artesão eclético que abandona as velhas roupas do imperador/compositor", fulmina os que ainda usam "aquele jaleco, fardão e status quo que a música erudita ocidental - em especial a europeia - construiu ao longo de mais de 300 anos. Esse abandono não é fácil, e muito menos desejável por aqueles que se aferram a uma situação e não querem ver que a caravana passa e os cães ladram...".

Colagens. São raros os espaços de que desfrutam os compositores que se dedicam à chamada "música de invenção". E nessas ocasiões, querendo dizer tudo, acabam fazendo longos e chatos discursos autolaudatórios e autorreferentes. Querem, é justo que seja assim, vender seu peixe; mas parecem igualmente preocupados em responder a ataques do passado, demarcar território. Quando não, se refugiam na discussão de debates teóricos ancorados em molduras teóricas europeias - o que, em si, não é defeito. Não deve ter sido este o objetivo de Tragtenberg ao conceber a coletânea. É inevitável, porém, que eles pensem a composição no Brasil hoje a partir de sua condição pessoal.

Outro obstáculo é o jargão acadêmico. Quanto mais distante dele e por consequência mais próximo do leitor comum, melhor. Por isso, as intervenções mais interessantes são as de Emanuel Dimas de Melo Pimenta, em estilo cageanoconcretista - como, aliás, o texto de Tragtenberg, um tributo aos 80 anos de Augusto de Campos, e o de Flo Menezes. Mas Pimenta, ao contrário do coordenador do livro, que dá coerência ao seu texto, adota o estilo metralhadora giratória numa sequência de colagens de frases de jornais com slogans salpicadas com posturas musicais aqui e ali. Como esta: "Depois de Charles Ives, o experimental desenhou a música erudita que não está na Europa." Ou então: "Música para um partido político ou uma ideologia? Johann Sebastian Bach: o objetivo e finalidade última de toda a música não deveria ser mais que a glória de Deus e a renovação da alma. O novo pelo povo?" E mesmo: "Alguém está interessado na música ou na poesia contemporânea?" Encantei-me com essa e até acho sabemos todos a resposta: "Onde está a corrupção?"

A mais contundente e certeira, contudo, é esta: "É possível pagar a conta do supermercado com música?" É algo que Rodolfo Caesar tenta responder no honesto, agudo e inteligente ensaio O Compositor de Hoje, Visto Ontem, em que desfila "algumas linhas de defesa de nossa preservação". Pensei nos pandas quando li a frase. Caesar, no entanto, lembra a sensação que têm os amputados de ainda movimentarem membros que já não possuem para afirmar que "o compositor é um membro fantasma da cultura de seus séculos anteriores". Clama contra as "políticas culturais burocratizadas" que "pretenderam estimular culturas de 'periferia' ao preço da retirada de apoios a artistas locais, 'concentrados na faixa litorânea carioca'. Assim desceu ralo abaixo um determinado dispositivo experimentalista, calando toda uma geração mais 'experimentada' em nome dessa descentralização que, efetivamente, não ocorreu!". Tudo isso "consolida ainda mais a universidade como último recurso para refúgio e expressão da Música Contemporânea".

Sonhando escrever para orquestra. Pioneiro da música eletroacústica e acusmática no País, faz uma pergunta importante: "Quem dentre todos nós, incluindo os 'alternativos', recusaria uma generosa encomenda de peça para orquestra?" Ninguém, com certeza, se houvesse convites, é claro. As orquestras, conservadoras em seu DNA, não se arriscam a encomendar obras mais encorpadas que ultrapassem os 5 minutos regulamentares que em geral acalmam a má consciência delas. Por isso, as universidades absorveram a música eletroacústica. Caesar é duro: "Sua entrada na universidade representou ao mesmo tempo a sobrevivência da espécie e, no caso brasileiro, a mistura de sua consagração estética com o início de uma fase oficial, chapa branca, acompanhada de uma considerável perda de dinâmica." Ele a chama de "Música Eletroacústica Institucional Brasileira, ou Meib". E como na universidade os "projetos musicais disputam com a cura da aids, criação de novos combustíveis ecossustentáveis", anota que a música se aproxima de padrões tecnocientíficos e diz que logo logo os compositores estarão "a serviço de uma indústria bioquímica de entretenimento", em que o "ouvinte (...) não mais ouvirá por seus orifícios auriculares - talvez adquira músicas em cartelas de 12 comprimidos com sabor hortelã". No caso brasileiro, inventariam em seguida os comprimidos de carambola ou banana.

Na mesma linha de texto concretista, que começa com a letra "A" ocupando a primeira página inteira de Senha e Contrassenha e termina em corpo diminuto, ilegível, Flo Menezes, o equivalente paulista em música eletroacústica e acusmática do carioca Rodolfo Caesar, evoca Pound, outro guru concreto, na frase "Confusão, fonte de renovações". Eu me senti nos anos 70 de novo. Fiz um corte e costura para tentar sintetizar o pensamento de Flo em suas próprias palavras, estranhamente gongóricas e com muitos lugares-comuns que não costumam habitar sua fina prosa. Ele diz que mescla em sua postura "as figuras do sacerdote e do militante (...) debatendo-me pelos poucos espaços que nos sobram, sediando nossas pesquisas nas universidades, celeiros do saber, apesar das vicissitudes de seus vícios... (...) o público no singular não existe (...) Organizamo-nos indistintamente em tribos distintas (...) num jogo tão pouco imprevisível como um lance de dados, aprende-se a nadar mesmo contra as correntes mais contrariantes e avistando ao longe com nossas lunetas, de quando em quando poupamos energia e as realimentamos em marés favoráveis, como quando do apogeu de nossos concertos, ritos de sacralização na primavera das ideias (...) mantendo-nos íntegros nesse percurso infausto, sem vender nossas almas a qualquer uniformização singular".

Fauna fratricida. Na mesma linha sacerdote militante verborrágico, Jorge Antunes, que comemora seus 70 anos em 2012, intitula seu texto Eu Componho, Logo, Sou um Pequeno Deus: Crio e Transformo. Mais uma metralhadora giratória afiada, embora meio atabalhoada, que escolhe 1979 como mote para desancar a execução ruim de uma de suas obras por Eleazar de Carvalho e a autocrítica do comunista Claudio Santoro, seu ídolo, que renegou publicamente naquele ano "todo aquele passado de engajamento político e que se arrependia de ter defendido ideias de esquerda e de tê-las embutido em algumas obras". Chamou-o de "prostituta arrependida" por ter regido um concerto em Brasília em honra ao general Golbery do Couto e Silva.

Antunes permanece mais engajado do que nunca. "Ainda hoje me vejo naquele isolamento, como um dos poucos compositores brasileiros - talvez o único - que se envolvem com ativismo político." Em seu longo texto, distribui pauladas para todo lado. Chama Willy Corrêa de Oliveira de mero clonador de Cornelius Cardew, o ex-aluno de Stockhausen que assumiu o ativismo político nos anos 70/80: "Ao invés (sic) de compor músicas, adaptou textos panfletários a melodias conhecidas, em forma de paráfrases e paródias, sem a menor preocupação artística." Sobra até para Gilberto Mendes: "Esperemos que todo aquele que estiver em crise fique trancado em seu quarto inventando letras novas para o Atirei o Pau no Gato, para O Tannenbaum, para o Mamãe Eu Quero Mamar." (Mendes pôs a letra Mamãe, Eu Quero Votar, nesta última, em 1984, na campanha pelas Diretas-Já, em versão para coral a quatro vozes.)

Resumindo: só o modo como ele usa a tonalidade é válido, mesmo misturando sua música com o bumba meu boi, porque se apoia "na ecologia e na série harmônica". É um debate amplo impossível de discutir nos limites deste artigo e que Antunes esmiúça em seu texto, ao qual remeto para melhor compreensão.

Livio Tragtenberg conclui seus "prolegômenos" dizendo que queria levantar "um painel de abordagens que contemplasse a diversidade da fauna". Conseguiu. A fauna - fratricida, como vimos - está toda lá. A tal ponto que, neste texto, falou mais alto meu DNA de jornalista. É jornalisticamente compreensível dar mais espaço às metralhadoras giratórias e menos aos que constroem discursos mais abstratos sobre os mecanismos da sua criação musical. Por isso, dois ensaios da maior importância infelizmente ficaram de fora. A eles pretendo voltar em artigo específico: Itinerário de Orfeu - Música e Experiência, de Marco Scarassatti; e Escutas e Reescritas, de Silvio Ferraz.

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