Mudando o clima

Combater a degradação do meio ambiente é um tabu entre a direita evangélica americana

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

17 Abril 2017 | 02h00

Passamos os Estados Unidos! Apesar do presidente eleito com slogans grandiosos, que se gaba de ter usado a mãe de todas as bombas, nós, em Pindorama, estamos na frente num quesito que importa para todo o planeta: cortamos mais nosso orçamento para meio ambiente do que o bilionário que diz que o aquecimento do planeta é uma invenção dos chineses. Sim, encara esta, Donald, pensa que é sempre o primeirão? Enquanto você reduziu o orçamento da agência de meio ambiente em 31%, nós fomos mais valentes. Cortamos a verba do Ministério de Meio Ambiente em 43%. Vai reclamar? Sim, você ameaça cair fora do Acordo de Paris, mas onde fica o maior pedaço do pulmão do mundo? É isso aí, no nosso quintal. E temos soberania para continuar destruindo a Amazônia. Nosso desempenho no ano passado foi impressionante: cortamos mais 29% das florestas.

No próximo sábado, mais de 500 marchas pela ciência vão pipocar em todos os continentes e dar a partida num movimento organizado para defender o conhecimento científico de cortes de orçamento, censura e ações que afetam a saúde humana e a do planeta. No sábado seguinte, vai ser a vez da Marcha do Povo pela Ciência, que pode reunir centenas de milhares de pessoas em Washington e terá também marchas irmãs em várias cidades e outros países.

É fácil prever que, nos Estados Unidos, as marchas vão atrair mais democratas do que republicanos. E também mais ateus, agnósticos, judeus e católicos do que evangélicos. Combater a degradação do meio ambiente e suas consequências catastróficas para a saúde pública e a economia é um tabu entre a direita evangélica americana. Se um deputado ou senador republicano admite em público que a Terra está aquecendo, ele logo é desafiado por um político à direita quando tenta se reeleger.

Uma evangélica tem percorrido o país para tentar mudar isso. Katharine Heyhoe deu uma entrevista fascinante ao programa de rádio semanal da revista New Yorker. Ela dirige o programa de Ciência do Clima da escola Texas Tech. Katharine nasceu no Canadá e conta que nunca tinha encontrado um conterrâneo desmentindo o fato: o planeta está aquecendo. Até que, seis meses depois de casada com um pastor evangélico americano, tomou o choque: o marido não acreditava na mudança do clima. 

Em vez de procurar outro marido, Katharine foi procurar uma estratégia de convencimento. Ela diz que não adianta esfregar estatísticas na cara dos céticos, os números assustadores são mais aceitos por pessoas que querem prova do que já acreditam acontecer. Um ponto de virada, lembra Katharine, foi quando o marido passou a baixar regularmente do website da NASA os dados sobre temperatura.

Quando vai a uma igreja, Katharine começa o papo dizendo que acredita em Deus e falando sobre valores morais em comum com a plateia, como amor à natureza. Ela diz que compreendeu que a resistência geralmente não é apego a política ou religião. É mais ligada à sensação de perda. Lembrei de um amigo e colega que passou a estocar lâmpadas incandescentes quando o governo Bush começou a substituir as lâmpadas por outras que consomem menos energia. Apesar de ter votado em George W. Bush, ele ficava insultado com a intromissão do governo. Medo de perder controle individual é uma motivação forte, explica Katharine. Já os políticos que, a portas fechadas admitem a mudança de clima e negam em público, diz ela, têm aversão a soluções a longo prazo.

Apesar do desmonte de regulações de meio ambiente anunciado pelo governo federal, Katharine Heyhoe acha que o interesse econômico está prevalecendo nas decisões ambientais que dependem dos estados. Mas, admite, melancólica: para cada carta com a crítica “você não é cientista porque é cristã”, recebe outras cem com a crítica “você não é cristã porque é cientista”. Haja marcha.

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