Felipe Rau/AE
Felipe Rau/AE

Mostra de Cinema tenta evitar o colapso do digital que causou embaraços no Rio

A maratona cinematográfica começa nesta quinta, 18, para convidados e amanhã para o público

LUIZ CARLOS MERTEN - O Estado de S.Paulo,

18 Outubro 2012 | 03h12

Andréa Cals, que organiza a seleção e apresenta os filmes da Première Brasil no Festival do Rio, não tinha mais cara para se desculpar com o público. Apesar do empenho da organização do evento, as projeções em digital levaram a uma sucessão de erros. Quase todo dia havia sessões interrompidas e salas iluminadas à espera de que os técnicos resolvessem o(s) problema(s). Com as luzes ligadas do Cine Odeon BR, já que não tinha filme, só restava ao público, em alguns momentos, admirar a beleza arquitetônica da sala restaurada.

O que a Mostra está fazendo para evitar que o fenômeno se repita em São Paulo? A grande maratona de cinema da cidade começa nesta quinta-feira, 18, para convidados e amanhã para o público. Serão exibidos cerca de 350 filmes - e só 30% deles ainda passarão em película, 35 mm. "A maioria é de filmes de retrospectivas", anuncia Adrianne Stolaruk, que começou na Mostra com o transporte de cópias e hoje divide a responsabilidade da produção das exibições com César Ramos. Adrianne acrescenta que a Mostra deve exibir os filmes nos formatos propostos pelos produtores e diretores. "Vamos ter filmes em 35 mm, em Blu-Ray e, em maior número, DCP."

É a sigla para Cinema Digital Packing, um sistema de arquivos digitais que são usados hoje em todo o mundo para armazenar e difundir imagens e sons captados digitalmente. A previsão é de que, daqui a pouco, a velha película - o 35 mm -, será relegado à condição de relíquia de museu ou cinemateca e todo o sistema de projeção será digital. "E o problema é que o Brasil ainda está atrasado na digitalização", adverte Renata Almeida, a sra. Mostra, que este ano assina sua primeira edição do evento sozinha. Ela anuncia que todas as providências estão sendo, ou já foram tomadas. "Mas são muitas variáveis e a condição das salas é uma delas."

Não são muitas as salas que estão nos trinques e já digitalizadas. Uma delas - que integra o circuito da Mostra - é a do Cinesesc, equipada com 2K e 4K. A programadora Simone Yunes é quem aparece na foto, exibindo o equipamento. Tudo agora é sigla e essas se referem à qualidade de projeção. O filme, como arquivo, é enviado em DCP, que será decodificado para projeção. Para que a imagem e o som sejam soltos na tela, é preciso uma chave, um código, fornecido pelos proprietários das cópias. Essa chave pode ser por algumas horas, ou dias. "O ideal é que o filme passasse em quatro sessões contínuas, mas isso com certeza seria um elemento de restrição, na hora de escolha do público", reflete Renata.

Ela acrescenta: "Nos venderam a ideia de que o processo digital era perfeito e muito fácil. Pode até ser que seja, um dia, mas não agora. Quando o DCP chega com antecedência, a gente pode abrir, testar. Mas, como antes havia problema de alfândega, agora existem outros problemas e o DCP pode chegar em cima da hora, sem passar por todos os testes. Um só arquivo corrompido pode inviabilizar a projeção. É um sufoco."

No ano passado, para evitar problemas em algumas salas, Renata conta que criou outros. "Chegamos a providenciar outros projetores, mas se eles resolviam um problema, às vezes criavam outros." Por conta disso, ela baixou a regra que vai valer em 2012: "Os filmes serão projetados sem interferência, segundo o formato dos proprietários e sem qualquer mudança no sistema das salas". Quando funciona, o digital é maravilhoso - basta lembrar do esplendor da versão restaurada de A Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick. A Mostra vai exibir este ano dois clássicos em DCP - Tubarão, de Steven Spielberg, e Era Uma Vez no Oeste, de Sergio Leone, em homenagem a Claudia Cardinale, que vem para a apresentação de A Sombra e o Gibão, de Manoel de Oliveira.

Não se trata de nostalgia, mas legítima preocupação pelo que, malgrado todos os cuidados, ainda não funciona 100%. "A gente faz tudo, mas chega uma hora em que tem de cruzar os dedos na expectativa de que dê tudo certo", diz Adrianne. Essa garantia, o 100%, nem o 35 mm pode oferecer. "Os filmes rodam os festivais ao redor do mundo e se danificam. Vamos exibir Tiro na Cabeça, produção franco-tailandesa dirigida por Pen-Ek Ratanaruang, com um minuto menos. A cópia chegou danificada e tivemos de cortar 27 frames." Por via das dúvidas, Renata Almeida resolveu não arriscar na abertura, logo mais à noite. "O Jean-Thomas (Bernardini), distribuidor de No, me ofereceu o DCP, mas para a abertura preferi enviar uma assistente ao Chile, que voltou com a cópia em película. Nem sempre é possível fazer isso, e nem sempre existem versões do filme em 35 mm. Nesse caso houve e o filme de Pablo Larraín vai abrir a mostra em película."

MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA EM SÃO PAULO

Central da Mostra. Av. Paulista, 2.073. 19/10 a 1º/11.

R$ 15/R$ 19 (individual) - www.mostra.org.

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