Mitos

Amália Leopoldina Araponga da Matta, baiana, filha de Jesuína e de Raul Augusto da Matta, era irmã de meu pai. Jamais se casou, mas via fantasmas e contava histórias.

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

26 Outubro 2016 | 03h00

Ficou pra “titia” e era assim que meus quatro irmãos e minha irmã a chamávamos. Papai casou com a filha de uma viúva consorciada com um viúvo que era seu pai. Logo, meu pai e minha mãe foram “irmãos de criação” e, depois, marido e mulher. Papai e tia Amália, sua irmã, eram filhos do viúvo Raul. Mamãe era filha de Emerentina e Carlos de Azevedo Perdigão, assassinado num bar de Manaus, em setembro de 1908. Emerentina tinha dois filhos e estava grávida de Lulita, nossa mãe.

De um modo abusivamente freudiano-mitológico, os filhos nascidos da união dos viúvos, Raul e Emerentina, foram ao mesmo tempo cunhados e irmãos. Pelos cálculos feitos por minha irmã, Ana Maria, que tem a memória da família guardada amorosamente na sua cabeça, Renato (nosso pai) tinha 11 e Lulita 7 anos quando os viúvos se casaram. Eles reuniram em suas pessoas a experiência da filiação, mas a aliança amorosa englobou, até onde pode, a irmandade, contrariando a regra de casar fora da família e da casa, se bem li o meu Claude Gustave Lévi-Strauss.

Quando, numa Manaus mítica que conheci pelo piano de mamãe, meus pais se casavam na igreja de São Sebastião, em 1935, um desses irmãos-cunhados declarou para um convidado: “Eis que minha irmã está se casando com meu irmão!”. O conviva sofreu um mal súbito já que estava diante da proibição que teria dado origem a vida social, a saber: a oposição entre o casar dentro ou fora da família. A determinação de separar a filiação (ancorada na hierarquia de geração) da aliança ou afinidade à qual remete a horizontalidade da troca, a sexualidade, reprodução e conflito. De fato, nossos tios nascidos do casamento dos viúvos eram irmãos por parte de Emerentina ou Raul e cunhados, por parte desses mesmos genitores que eram igualdade madrasta e padrasto.

Imagino a confusão emocional. Alegria ao lado da inveja quando esses irmãos-cunhados testemunhavam o consórcio dos seus irmãos de criação. Um amor nascido dentro da casa que o excluía.

Lembro, tentando escrever uma crônica, mas fazendo um ensaio sobre parentesco, que a palavra enteado significa “nascido antes”. Ela exprime uma dupla filiação e uma dupla aliança. Tal como ocorre no incesto há aqui, como diz Lévi-Strauss, um “abuso” ou “excesso” de relacionamentos quando, pelas regras costumeiras, ser filho e irmão ocorre antes do casamento. Um papal não se intrometeria com o outro. Sabe-se que, em inglês, o rebento que veio com e não do casamento é um “stepchild”. Conforme remarcou Louis Dumont, no mundo anglo, a categoria “parentesco” (kinship) tudo engloba, de modo que os afins são a ela incorporados como “in-laws” ou “steps”.

Na nossa família, repetiam o mito que jamais ocorrera o favorecendo de um filho contra um enteado. Mas a preferência pelas histórias tipo Branca de Neve de Titia mostrava o seu viés antimadrasta e o enorme complexo da mãe postiça que, penso, até hoje, permeia a casa brasileira. Restaria acrescentar que meus pais não conheceram os efeitos benéficos da afinidade, revelados nos modos diferenciados de lidar com o dia a dia e com o sofrimento.

*

Tudo isso para dizer que Titia compensava a sua rivalidade com Lulita, nossa mãe, filha da viúva, enteada do viúvo e esplêndida pianista, “contando histórias” e tendo o dom das premonições e de ver fantasmas. Era magra, calada e foi marginalizada pelos meus tios. Seu irmão, meu pai, porém, levou-a consigo no seu casamento e assim consorciou-se com sua “irmã de criação”, mas conviveu com a irmã que foi nossa ama.

Nos dias de chuva, Fernando, Romero, Ricardo, Renato e eu, sentados no chão frio da varanda, ao pé de Tia Amália, ouvíamos histórias ocorridas “no começo do mundo” ou “no tempo em que os animais falavam”.

Dela soube que o Diabo comprava almas dando em troca moedas de ouro como propina. Também descobri as gentilezas do Demônio, que até hoje – como estampa esse jornal – domina a alma política nacional. De Titia Amália gravei a narrativa do “Caminho que vai-não-torna”, o qual conduzia sem volta a um tesouro guardado por um Dragão. Não tenho como dizer se o monstro era procurador ou juiz. Mas o que aprendi foi que os dragões botavam fogo pela boca e – como os nossos melhores políticos – dormiam de olhos abertos e estavam acordadíssimos quando fechavam os olhos...

Quanto às narrativas de almas de outro mundo, elas ficam — como delação de Eduardo Cunha — para uma outra crônica.

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