Misto quente

Combinaram de se encontrar para o almoço. Ela tinha uma coisa importante para dizer. Decidiram que ela diria o que tinha para dizer antes de pedirem a comida. Seguinte, disse ela. Nosso namoro acabou.

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

24 Maio 2015 | 03h00

Ele levou um choque.

– O quê?

– Ganhei uma bolsa de estudos no Canadá. Vou ficar fora um ano.

– Mas...

– Nenhum namoro resiste a um ano de separação. É melhor parar agora.

Dito o que tinha para dizer, ela passou a estudar o menu, enquanto ele tentava se recuperar do choque.

– Mmm... – disse ela. – Acho que vou pedir uma saladona, depois uma vitela ao molho branco com batatas a vapor e, deixa ver... Purê de maçã. E umas alcaparras. E você?

Ele continuava a olhar fixamente para ela, como se estivesse em transe. Finalmente falou:

– Um misto quente.

– Um misto quente? No almoço? A comida aqui é muito boa. Pede outra coisa.

– Eu quero um misto quente.

– Você ficou sentido...

– Não fiquei sentido. Só quero um misto quente.

Quando tomou os pedidos, o garçom apiedou-se dele.

– O senhor quer alguma coisa com o misto quente? Ketchup? Mostarda? Fritas?

Só um misto quente. Um simples misto quente. Um despretensioso misto quente. Presunto e queijo entre fatias de torrada. Só. O básico. Sem adornos. Sem complicações. Intocado pela inconstância humana. Incapaz de uma desfeita ou de uma crueldade, seja com quem for.

O garçom desculpou-se e foi tratar dos pedidos. Ela disse:

– O misto quente é contra mim. É isso?

– O misto quente não é contra nada nem ninguém. Um misto quente é um misto quente.

– Você está revoltado comigo, e...

– Não estou revoltado. Estou em paz. A perspectiva de um misto quente me aquece o coração. Estou pairando sobre as maldades do mundo, a mesquinhez dos homens e a traição das namoradas. Você sabe que existe uma seita no Nepal que só se alimenta de mistos quentes? Dizem que purifica o espírito, ajuda a digestão e leva à sabedoria suprema. Parece que o queijo e o presunto representam a dualidade alma/corpo em todos os seres, o queijo simbolizando a alma e o porco o corpo, e a torrada o envelope cósmico que...

– Quer parar com isso?!

– E, além de tudo, eu nunca simpatizei com o Canadá. 

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