Mística masculina

NOVA YORK - Atenção, Ibama. Chega pra lá, onça pintada.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

08 Outubro 2012 | 03h01

O homem está ameaçado de extinção.

É o que podemos concluir, a julgar pelas proclamações editoriais - livros, ensaios, entrevistas, no latifúndio do zeitgeist americano.

Nós somos mais educadas, competentes, adaptáveis, e, ó triunfo, temos um útero, podemos ser engravidadas no laboratório.

Fora uma troca de pneu na neblina, na serra da Rio-Petrópolis, vocês, latagões, estão em pouca demanda.

Desde que passei 15 horas, ao mudar de apartamento, no final do último milênio, conectando uma TV, um DVD e um VHS player, um CD player, um amplificador e duas caixas de som num sistema único, atrás de uma estante pesada, não visitava esta sensação de independência mas, como a provocada pelo triunfo eletrônico, é uma sensação vã. Ou, como diria Hanna Rosin, autora de The End of Men, and the Rise of Women (O Fim dos Homens e a Ascensão das Mulheres), um sentimento de independência ambígua.

O livro de Rosin é o mais destacado de uma série de títulos que fazem a crônica da obsolescência masculina, um resultado, não de sutiãs queimados em passeatas, mas de uma transformação econômica que despreza os músculos pela inteligência social e a capacidade de manter um foco estreito numa atividade.

Mas não é o caso de desarrolhar o prosecco porque este matriarcado emergente, em que a maioria dos graduados em universidades é de mulheres, não reflete um triunfo de igualdade entre os sexos.

O champanhe continua no território onde os homens são a maioria dos CEOs, as mulheres ganham 73% do que ganham os homens em posições de chefia e a indústria tecnológica continua dominada por homens.

Stephanie Coontz, a estimada acadêmica e autora de Casamento, Uma História, prefere a frieza das estatísticas à narrativa anedótica. No começo de 2011, encontrei Coontz para uma conversa sobre seu livro A Strange Stirring, uma releitura de A Mística Feminina, de Betty Friedan, e de seu efeito nas gerações seguintes. Naquela ocasião, Coontz comentou como a desigualdade social produzia cenários diferentes na emancipação feminina e como certos ganhos femininos no mercado de trabalho haviam estagnado.

Na semana passada, Coontz tratou da mística masculina, num artigo no New York Times sobre a nova onda de títulos que decretam o crepúsculo do macho. Sim, a recessão americana desempregou inicialmente uma maioria esmagadora de homens, mas eles são agora maioria entre os que recuperaram emprego. Sim, as mulheres estão se educando mais, uma tendência que alguns estudos explicam como um esforço para compensar a desigualdade de remuneração.

Sim, é menor o número de homens que admite a necessidade de estudar mais, o que Coontz atribui ao reverso da medalha - assim como as meninas eram desencorajadas a procurar atividades consideradas masculinas, os meninos resistem à suposta fraqueza de passar mais tempo na escola e se concentrar.

A cultura popular americana está cheia de losers, personagens masculinos que perderam sua importância social (e seu emprego para operários chineses) e se comportam como eternos guris. Mas, lembra, Stephanie Coontz, a solidão desses meninos-homens não vem do declínio do macho e sim do fato de que as mulheres não se sentem mais obrigadas a aturá-los.

O grande racha da sociedade americana não é de gênero. O que mais afeta os americanos é a desigualdade de classe e esta não poupa mulheres nem homens.

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