Minha mulher é insuportável

Ela sabia que ele estava decidido a ser infeliz e a inviabilizar a felicidade dela

Ruth Manus, O Estado de S.Paulo

19 Março 2017 | 02h00

Quando Renato tinha 11 anos, assistiu a um filme no qual ouviu a frase. Era uma frase tão forte, tão assertiva e tão máscula que Renato passou a esperar ansiosamente o dia em que teria uma esposa apenas para poder inflar o peito e dizer “minha mulher é insuportável”.

Renato casou-se com Júlia. Júlia era uma mulher tranquila por quem ele se apaixonou. Júlia era igual a todas as mulheres: tinha dias bons e dias ruins. Na verdade, Júlia era igual a todas as pessoas do mundo. Renato gostava dela e até tinha alguma pretensão de ser feliz, mas nada iria impedi-lo de realizar seu sonho de ter uma mulher insuportável.

Encontrou sua primeira oportunidade num dia em que Júlia se queixou por ele ter deixado a roupa suja no chão. Ela estava no banheiro e ele no quarto. Renato ouviu a reclamação, abriu um sorriso lento e sussurrou baixinho “minha mulher é insuportável”. Sentiu-se mais homem do que nunca. Disse a Júlia que, se não gostava de roupa no chão, ela que pegasse. Júlia estranhou aquele Renato.

A partir daí, Renato começou a deliciar-se. Júlia dizia “Querido, vai querer levar marmita pro trabalho hoje?” e ele pensava “minha mulher é insuportável, não me deixa nem comer no quilo perto do escritório”. Júlia dizia “Querido, a que horas vamos sair para a casa da sua mãe?” e ele pensava “minha mulher é insuportável, controla absolutamente tudo”.

Júlia mandava mensagem para ele no meio da tarde dizendo “Querido, vou chegar mais tarde hoje porque vou dar aquela palestra sobre erosão ácida” e ele comentava com o colega de baia “minha mulher é insuportável, fica mandando mensagem no meio da tarde, não me deixa trabalhar”. Renato chegava em casa e frequentemente encontrava um bilhete à sua espera “Querido, tem sopa e peito de frango na geladeira” e Renato dizia para si mesmo “minha mulher é insuportável, só faz essas comidas de dieta”.

Renato era muito bem-sucedido nessa sua missão de convencer-se de que sua mulher era insuportável. Adorava dizer isso na roda de amigos. Muitas vezes, encontrava adesão à sua causa. O Flávio dizia que a Roberta era insuportável porque não deixava as crianças deitarem-se depois das 21. O João dizia que a Camila era insuportável porque o obrigava a fazer exames de sangue anuais. O Gustavo dizia que a Luiza era insuportável porque ficava comentando com ele sobre os livros que lia, mesmo sabendo que ele detestava romances históricos.

Renato percebeu que ele não era o único que gostava de se convencer que era casado com uma mulher insuportável. Tudo era justificativa para julgá-las e condená-las: a preocupação com os filhos, os horários, a alimentação, o gosto musical, o horário em que elas acordavam, o horário no qual chegavam do trabalho. Renato percebeu que era muito fácil convencer outros homens de que eles eram vítimas das suas terríveis mulheres e que tudo o que elas faziam, por mais positivo que fosse, era porque elas eram todas insuportáveis.

Renato olhava para Júlia com sua camisola cor de rosa, segurando uma taça de vinho branco e sorrindo enquanto lia o livro do Verissimo e pensava “o que eu fiz para merecer isso? Ela nem olha pra mim. Ela é realmente egocêntrica. Que mulher insuportável”. Júlia subiu os olhos do livro e disse, calmamente, “Querido, eu quero o divórcio”.

Discutiram e Júlia disse que era evidente que ele estava infeliz, por mais que ela tentasse agradá-lo. Renato gritou “É exatamente esse o problema, Júlia!!”. Ela não insistiu. Depois de 7 anos, ela sabia que ele estava decidido a ser infeliz e a inviabilizar a felicidade dela. Divorciaram-se. Júlia casou-se de novo e é feliz. Já Renato está radiante. Descobriu ainda mais prazer em dizer “minha ex-mulher é insuportável” e encontrou a plenitude dentro da miséria que decidiu tornar sua vida.

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