Mentiras sinceras

Exposição no Metropolitan de Nova York ilustra como falseamento de imagens já era corrente 100 anos antes do photoshop

JOTABÊ MEDEIROS , ENVIADO ESPECIAL / NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

28 Outubro 2012 | 03h13

No minuto em que você pega sua câmera já começa a mentir - ou a contar a própria verdade. A frase do famoso fotógrafo Richard Avedon, dita em 1967, está num painel acima da cabeça num dos corredores do Metropolitan Museum of Art, em Nova York, na exposição Faking It: Manipulated Photography Before Photoshop. É a primeira grande mostra devotada à história da manipulação e do falseamento na fotografia desde sua invenção, reunindo 200 trabalhos fundamentais entre 1840 e os anos 1990, divididos em 7 seções, nos ramos da arte, política, comércio, entretenimento, publicidade, etc.

As fotografias exibidas foram alteradas usando-se uma variedade de técnicas, incluindo-se aí a exposição múltipla, fotomontagem, retoque à mão com pintura, manipulação de negativos ou uma combinação de impressões. "É só uma questão de quão longe você escolhe ir", continua a frase de Avedon, finalizando sua reflexão.

A exposição, que foi aberta no dia 11 e vai até o dia 27 de janeiro, permite um notável debate sobre a natureza da fotografia, cuja reprodutibilidade técnica foi a um nível jamais imaginado por Walter Benjamim, com a chegada do Instagram e dos smartphones. O que é real? O que é simulação? O que é arte? O que é compulsão de consumo da imagem? É só a Playboy que retoca os excessos laterais de suas coelhinhas ou o jornalismo também retoca os efeitos colaterais de suas notícias? Exame que foi moda entre os semiólogos, como Roland Barthes e Umberto Eco, hoje exige uma nova abordagem.

No percurso da exposição, com curadoria de Mia Fineman, vê-se que a antiga presunção de imparcialidade da imagem, sua suposta objetividade, já era um mito desde a invenção da arte da fotografia. O photoshop, hoje um recurso vulgar, também não chega a ser uma novidade formal na história da fotografia. Fotógrafos do século 19, como Gustave Le Gray e Carleton E. Watkins, criaram fabulosas paisagens sobrepondo negativos numa única folha de papel.

Heroísmos épicos foram fabricados com singelos truques fotográficos. A mostra recuperou as três imagens que viraram uma só, do norte-americano Levin Corbin Handy, chancelando a "bravura" do general Ulysses Grant em City Point, em 1902. O truque: Handy pegou uma foto ordinária de Grant, cortou-a, colocou o general em um cavalo de outro general, McCook (que cortou da foto), e levou tudo até um campo de guerra.

A exposição mostra também o uso político da manipulação da fotografia. Os casos mais rumorosos foram os dos expurgos ordenados por Josef Stalin, na antiga União Soviética, para eliminar antigos colaboradores que mandava fuzilar ou para retirar do seu lado, em instantâneos históricos, aliados com os quais rompera. O retrato de Lenin com um jovem Stalin foi forjado: Stalin não estava originalmente naquela foto.

Charlatanismos foram sustentados com truques fotográficos bizarros. Uma foto de 1856, The Ghost in the Stereoscope, mostra um espectro assustando uma pessoa à mesa de jantar. A médium Marguerite Beuttinger, em 1920, exibia foto em que "saía" de seu corpo em uma fotomontagem tosca que certamente causou espanto em sua época. Assim como serviu à embromação, a manipulação também serviu ao estatuto da arte, sendo largamente utilizada pelos dadaístas na primeira metade do século 20. Essa faceta está na exposição, como na célebre foto Leap into the Void, de 1960, na qual Harry Shunk documentou o "voo" do artista conceitual Yves Klein de uma janela do segundo andar de um sobrado.

Ou seja: a "verdade" da fotografia depende de qual verdade seu autor está procurando, e de qual verdade seu observador depende. Quando tudo está sendo obtido por meio da falsificação, é até possível que a verdade se torne um tipo de diamante raro - mesmo que seja um diamante obtido artificialmente.

O software do Photoshop foi registrado pela Adobe em 1988, no Vale do Silício. Nesses 20 e poucos anos, tornou-se sinônimo de manipulação de imagem. Revistas semanais "limparam" seus personagens de capa (ou os "embranqueceram", em atos claramente racistas) nos últimos anos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.