Mentes dos arquitetos

Livros dissecam pensamento e obra de Álvaro Siza e Paulo Mendes da Rocha

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

28 Novembro 2012 | 02h11

Operar milagres, em arquitetura, é perfeitamente plausível. O Museu Iberê Camargo (RS), do arquiteto português Álvaro Siza, por exemplo, é considerado uma espécie de milagre de resolução formal. A lição do mínimo no Museu Brasileiro de Escultura (SP), de Paulo Mendes da Rocha, é outro tipo de milagre.

E de onde vêm os milagres? Bom, há muitas respostas, mas essa tarefa fica mais cristalina quando se nos é oferecida a oportunidade de entrar na mente de dois expoentes desse ofício, nessa coleção da Estação Liberdade. O depoimento de Siza no livrinho Imaginar a Evidência (gravado em três longas sessões em seu estúdio na cidade do Porto) ajuda a desmistificar sua lenda. Siza fala de seus projetos com detalhes, pontuando sua fala com algumas de suas motivações, como a tentativa de recuperar "aquela sabedoria instintiva, hoje perdida, que sempre regulamentou o estudo das dimensões, das proporções e das relações dos espaços".

O brasileiro Paulo Mendes da Rocha também ajuda a elucidar seu próprio trabalho, no alentado volume América, Cidade e Natureza, compilação de depoimentos, entrevistas e aulas (incluindo a de 50 anos da FAU-USP e a prova de postulação a professor titular na mesma universidade). "Claro que há arte (em meu trabalho), mas acontece que para mim arte sempre foi ciência e filosofia, se você quiser dizer assim, para compreender fácil com palavras o universo amplo que você quer dizer das coisas."

Sua meta parece ter sempre sido, ao longo dos anos, elaborar um discurso crítico sobre a arquitetura, a cidade e a humanidade - conforme salienta o filósofo espanhol Eduardo Subirats. Os depoimentos de Mendes da Rocha compreendem um período de 12 anos, de 1995 a 2007. Foram concedidos a Maria Isabel Villac, professora do Mackenzie e doutora em Teoria e História da Arquitetura pela Universitat Politecnica de Catalunya.

"Não concebo a imaginação como origem da invenção, como morada da invenção absoluta. Não a idealizo de forma alguma. Se observarmos atentamente os grandes intérpretes da arquitetura, como Le Corbusier, com seu manifesto do 'tudo novo', o que vemos? Por mais brilhantes, convincentes, fundamentais e manifestamente insólitas que pudessem ser suas inovações, elas são no fundo uma concentração, uma condensação de descobertas anteriores", disse Álvaro Siza, um dos mestres da arquitetura de nosso tempo.

Siza rejeita a predestinação e é claro em seu recado: seus projetos mais elogiados são fruto da "consciência da imprescindibilidade da colaboração e da interdisciplinaridade". Ele reconhece todas as múltiplas influências em obras como o museu no Parque Oeste, em Madri, mas também denuncia que busca uma "arquitetura sem tempo", uma obra que revele "uma malha muito sutil e complexa, não uma única obsessão limitativa".

Já Paulo Mendes da Rocha se debruça sobre as diferenças e as similaridades da arquitetura do seu mundo e do resto do mundo. "As construções brasileiras não foram feitas para defender ninguém de nada. Você entra por uma porta e sai por outra. Eu acho que isso é um reflexo belíssimo de uma condição distraída e legítima. Queria que o mundo todo pudesse ser assim quanto a uma invasão, a uma agressão que possa vir do outro. É uma ideia de um espaço que se organiza só para dizer: aqui é o lugar. Quando quiser entrar, entre aqui. Mas não está protegendo nada de nada. Não tem nada a ver com a paliçada, a muralha, o fosso, que afinal de contas são arquétipos da arquitetura de outros lugares."

"O que desenha a imprevisibilidade da vida é justamente a construção que é necessariamente nítida e rigorosamente técnica; não pretende determinar fim, modo, meio e programa, mas amparar a indeterminação, a imponderabilidade da liberdade individual", diz o brasileiro.

Os dois títulos serão lançados hoje, às 19 horas, na Livraria Cultura do Shopping Villa-Lobos (Avenida das Nações Unidas, 4.777, Alto de Pinheiros, tel. 3024-3599), com debate entre Paulo Mendes da Rocha e Carlos Guilherme Mota - e mediação de Maria Isabel Villac.

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