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Mentes criminosas

Cristina Padiglione - O Estado de S.Paulo

24 Agosto 2014 | 02h 07

Fã de suspensepsicológico, Glória Perez cria serial killer parasérie na Globo

RIO - As noites de sexta-feira na Globo serão habitadas, a partir do dia 19, por Eduardo Borges, mais conhecido como Bruno Gagliasso. Para a namorada, personagem de Débora Falabella, ele é o último príncipe encantado do planeta. Aos olhos da audiência, no entanto, Edu se mostra de imediato um assassino em série, sempre de mulheres. Isso é Dupla Identidade, primeira série semanal de Glória Perez, fã do gênero e leitora voraz de toda a literatura que embasa as mentes mais assassinas da TV. Adora The Fall, Dexter e Criminal Minds, entre outras, e chega a comprar os DVDs de algumas delas para revê-las. Se você não é muito chegado a sangue, tudo bem. O foco aqui está na mente assassina, e não no estrago físico provocado.

O caso é que os serial killers se multiplicam aos montes na TV paga, sempre com procedência americana, e a autora achou que valeria a pena testar os efeitos desse formato, de "suspense psicológico", na TV aberta. De fato, faz tempo que um representante da espécie nascido e criado em terras tupiniquins não aguça os anseios da audiência local - ao menos na ficção. Já se vão 22 anos desde que Miguel Falabella fazia o diabo com aquelas Noivas de Copacabana. 

Glória resolveu aproveitar a abertura que a atual direção da Globo vem propiciando a seus criadores, em busca de novas propostas, e investiu no assunto. "Percebi que todos esses seriados de que a gente gosta remetem a casos reais", disse ela ao Estado, em entrevista no QG onde escreve, com vista para toda a orla de Copacabana. Não que Edu seja a personificação de algum assassino de verdade. "Ele não é o retrato de nenhum serial killer da vida real, como os das séries americanas não são, mas ele pega algumas características e fatos acontecidos com serial killers reais."

Com formação em História, Glória tem no estudo da mente dos assassinos em série um menu sob medida para o gosto de quem se dedica a pesquisas antropológicas para criar sua ficção. Estudou casos reais, leu e ouviu profissionais que se relacionaram com assassinos do gênero, como a especialista Ilana Casoy, e resolveu compartilhar seu levantamento com a plateia, antes mesmo de a série estrear: criou um blog que detalha todo o levantamento, personagens e manias que a levaram a mergulhar na criação de Edu e seu universo.

Acessado pelo endereço http://gloriaperez.com.br/duplaidentidade, o blog abriga também pesquisas sobre o transtorno de boderline - mulheres que amam demais e se exasperam para não deixar seu conto de fadas ruir - que acomete a namorada do assassino. E não se trata de misturar temas distintos sob o mesmo guarda-chuva: borders e criminosos são o "casamento perfeito", como explica a autora. É uma combinação gerada pelo poder de sedução do assassino, sempre disposto a dominar, e pela carência da border, sempre disposta a ser dominada. "As borders são o extremo da sensibilidade, são a sensibilidade à flor da pele, enquanto os psicopatas têm ausência de sensibilidade."

A atração de determinado perfil feminino por assassinos é constatada em casos como o de Francisco de Assis Pereira, o Maníaco do Parque, que chegou a ser campeão de cartas de amor na prisão, e em histórias similares. "Primeiro há uma característica muito comum em mulheres: a de querer reformar homem e achar que 'comigo vai ser diferente'. É como eu sempre digo: mulher tem um pouco de fascínio por obra: às vezes a gente compra o primeiro andar e quer transformar numa cobertura. E tem um pouco daquela vaidade de mulher que quer suplantar a outra, e dizer 'esse homem fez tudo isso com todas as outras, mas comigo ele é diferente'", opina a autora, para quem esse universo é, em termos de estudo, "fascinante".

Sob direção de Mauro Mendonça Filho, Dupla Identidade prevê 13 episódios e foi toda rodada em 4K, tecnologia que multiplica por 4 a alta definição - o que ainda não tem efeito para o telespectador, já que a recepção depende de codificador e televisor compatível. 

Luana Piovani, como psiquiatra forense, e Marcello Novaes, como delegado, assumem a condição de caçadores do serial killer. O script prevê um duelo intelectual entre a bonitona e o assassino, que deixa pistas para honrar sua vaidade, o que também serve para alimentar o roteiro. "Por que se consegue sustentar uma série com polícia e serial killer? Porque, se ele não se exibisse, como ele criaria esse diálogo com a polícia? Tem sempre a forma de exibição. A pessoa está se escondendo, mas também está desafiando ser encontrada." O elenco conta ainda Aderbal Freire Filho, na pele de um senador que Edu bajula para tentar ascender ao poder. E participações especiais em todos os episódios, no caso, as vítimas do assassino. 

Figura socialmente muito aceitável, Edu faz até trabalho voluntário, a fim de não despertar suspeitas em torno de sua atividade, digamos, ilícita. "É um sedutor em todos os sentidos, como todo serial killer", endossa a autora. "Na vida cotidiana, é um camaleão, que vai se colocar sempre para agradar e vai mudar de personalidade de acordo com quem ele quer agradar, com uma facilidade impressionante. São pessoas que têm essa habilidade e por isso conseguem fugir durante muito tempo. Tem gente que ficou casada 30 anos com um e não soube."

Discípula de Janete Clair, Glória Perez não conta como Bruno matará suas vítimas, mas adianta que não haverá sangue. Pode ser com seringa? "Não, seringa já usei", desdenha. "E não gosto de me repetir". "Use a sua imaginação."