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Cultura

Gilles Lapouge

'Mein Kampf'

A republicação na Alemanha de um livro de18 de julho de 1825 tornou-se um acontecimento. No entanto, esse livro sempre foi sucesso. Após uma arrancada inicial lenta, pegou velocidade de cruzeiro a partir de 1929 e hoje se calcula que já foram impressos 30 milhões de exemplares - principalmente na Alemanha, mas também no mundo todo, em muitas línguas. Mesmo assim, republica-se. Estranho. É preciso dizer que o livro se chama Mein Kampf (Minha Luta) e seu autor é Adolf Hitler. 

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Gilles Lapouge

09 Janeiro 2016 | 02h00

Nele, é anunciado, oito anos antes da ascensão de Hitler ao poder, o programa político do responsável pela morte de dezenas de milhões de pessoas, pelo assassinato científico de judeus e por desolação na Europa. Hitler o escreveu quando cumpria nove meses de prisão após o fracassado golpe de Estado de 1923, conhecido como Putsch da Cervejaria, com sugestões do amigo Rudolf Hess. 

O texto alemão é deplorável (Hitler não tinha muito estudo) e as frases, como o pensamento, são tão mal elaborados, tão confusos que os primeiros leitores mal conseguiam se localizar ou avaliar a dose de delírio e horror contida no livro-programa. 

Nos anos seguintes, enquanto Hitler se aproximava do poder, seus amigos o persuadiram a melhorar o texto. Um deles teve papel de destaque com as correções, Bernard Stempfle. Sua dedicação, porém, de nada lhe valeria: seria morto pelos nazistas na Noite dos Longos Punhais, talvez por ordem do próprio Hitler. Stempfle dissera ao autor que ele escrevia “em mau alemão”. 

Em 1930, o livro encontrou seu público e, após 1933, tornou-se a bíblia do regime. Edições de luxo eram feitas. Jovens casais recebiam um exemplar de Mein Kampf de presente de casamento. Como Hitler era um homem sensível, exigiu que sua obra fosse publicada em braile, para que os cegos também pudessem usufruir dela. Ficaram assim sabendo que, em 1925, o jovem Hitler previa que, no futuro Grande Reich, os “deficientes” seriam eliminados e os “povos inferiores” seriam escravizados pelos “superiores”. 

Entre os “povos superiores”, estavam os franceses, que ganharam a guerra de 1914-18. O livro, claro, verte ódio contra os judeus. Estão lá os clichês mais abjetos (clichês que o marechal Pétain vergonhosamente retomaria durante a ocupação alemã de 1940-44). 

Os piores tratamentos aos judeus são anunciados, mas não se fala em câmaras de gás, apenas há algumas alusões obscuras. É esse o livro que de novo aparece na Alemanha, tendo caído em domínio público 70 anos após a morte do autor. Alguns ficaram chocados com a ressurreição do texto ignóbil. Outros se afastaram da produção da obra em nome de um escrúpulo histórico. 

A nova edição, de 2 mil páginas, é acompanhada de notas científicas redigidas pelo Instituto de História Contemporânea de Munique, que trabalhou nela desde 2009. Esses historiadores pretendem “desconstruir” a popularidade do regime nazista. 

O livro será republicado na França? O editor Fayard o colocou em sua lista, mas não se sabe quando o publicará. Muitas vozes se levantam indignadas. Outras acham que se trata de uma discussão inútil. De fato, já existem na França edições com tiragem limitada de Mein Kampf. 

E, na internet, qualquer um pode ler o livro com um simples clique. “Não é mais saudável, então, opor a essa prosa um texto produzido num ambiente científico, o texto dos historiadores de Munique?” É, é... Mas, para alguns, a obra se assemelha a uma besta imunda, cuja simples contemplação traz o risco de envenenar nossas cidades e corações. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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