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'Massai Branca' traz romance entre suíça e guerreiro do Quênia

Luiz Zanin Oricchio, do Estadão

31 Dezembro 1969 | 21h 00

Filme de Hermine Huntgeburth baseado no relato autobiográfico da suíça Corinne Hoffmann, um best seller na Europa

Carola (Nina Hoss) é a moça suíça que vai passar férias no Quênia com o namorado e se apaixona loucamente por um guerreiro massai. Pele branca e pele negra, choque cultural e uma abissal atração entre sexos são os ingredientes deste "A Massai Branca', filme de Hermine Huntgeburth baseado no relato autobiográfico da suíça Corinne Hoffmann. O livro está sendo publicado no Brasil pela Geração Editorial depois de ter se tornado best-seller na Europa. Em rápida folheada, parece bastante franco nas descrições, sempre do ponto de vista de uma mulher européia, do Primeiro Mundo, sobre seu relacionamento com alguém que, em outros tempos menos corretos, seria chamado sem cerimônia de "selvagem".   Veja trailer de A Massai Branca   Hoje essa qualificação não tem mais sentido ou cabimento Mas, mesmo assim, o que vemos é um choque de diferenças, buscado, explicitamente, pelas duas partes. Nesse ponto, talvez, o filme poderia ter se aprofundado, no irredutível da situação. Por exemplo, existe algo que incomoda Nina, pelo menos no início - e é não saber exatamente do que trata sua compulsão. Ela mesma evoca uma história que conhece: um homem, um dia, está num aeroporto e sente-se impelido a invadir a pista. Depois de ser detido, a polícia lhe pergunta por que motivo havia feito aquilo Ele se limita a dizer: "Tinha de fazê-lo, não havia outra alternativa."   Esse encontro entre diferentes tem sido tematizado desde há muito pela cultura ocidental. Segundo alguns teóricos, como Tzvetan Todorov, está na origem de alguns relatos da literatura fantástica do século 19, em particular. É o Outro, o estranho, aquele que nos assusta e ao mesmo tempo nos atrai porque nele encontramos a diferença mas também o elo comum que une toda a humanidade. E, claro, por esse magnetismo do Outro passa toda uma série de fantasias relacionadas à sexualidade e, ao que parece, é disso que se trata em "A Massai Branca". Pelo menos em um primeiro momento.   O interessante do filme - mas diz respeito também à sua limitação - é apresentar tudo de um ponto de vista único. De certa forma, isso é inevitável, pois o ponto de vista alheio, mesmo sendo da nossa própria cultura, é sempre suposto. Achamos que alguém pensa ou sente de tal ou qual maneira e nos comportamos em conformidade a essas suposições. Todo jogo da intersubjetividade se baseia nessa aposta - bastante sujeita a enganos, como é quase inútil dizer. Ainda mais quando se trata de culturas tão diferentes, como no filme.   O que também é curioso, pois Carola, atraída pelo diferente, não deixará de tentar impor a ele sua marca européia. Essa é a singular contradição desse tipo de encontro. Ama mos a diferença e, ao mesmo tempo, procuramos anulá-la. Ou, pelo menos domesticá-la, trazendo-a para o terreno que conhecemos. Como se quiséssemos matar exatamente aquilo que nos havia atraído no primeiro momento.   Então, a moça suíça, que sucumbe à paixão pelo desconhecido, logo tentará ajustar as coisas à sua sintonia fina européia. Mesmo que, na narrativa em off logo no começo, ela admita que os massai não conhecem nem passado e nem futuro - para eles existe apenas o presente. E que havia falhado ao não levar isso em conta. Sem poder saber como se comportar diante de tal abolição temporal, da ausência da memória ou da expectativa, a moça, por exemplo, tentará estabelecer um comércio com os moradores da aldeia. Abre uma loja com suas economias e espera que as mercadorias sejam pagas e não se venda fiado aos conhecidos. Mesmo porque, todos ali são conhecidos. Essa ética comercial - comprar, pagar, receber, honrar o crédito - parece aos massai uma anomalia a mais da mulher branca inserida entre eles, tão estranha quanto a cor da sua pele. Uma anomalia entre muitas outras.   Nesse filme interessante, porém narrado sem muita intensidade, fica mais essa contradição: como é possível dar conta, com uma opção narrativa de tanta racionalidade, de algo que, no limite, é fruto da mais alta irracionalidade - naquilo que ela possa ter de criativo, e também de destrutivo?     A Massai Branca ("The White Massai", Alemanha/2005, 132 min.) - Drama. Dir. Hermine Huntgerburth. 14 anos. Cotação: Bom

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