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Maria Valéria Rezende viveu na rua para escrever romance

Escritora e freira lança, aos 72 anos, ‘Quarenta Dias’, sobre professora que surta com a ideia de abandonar rotina para ser avó

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

02 Maio 2014 | 19h30

Quando menina em Santos, Maria Valéria Rezende assistia, da sala da avó Georgina Aranha de Rezende, a movimentação cultural da cidade. Pagu era figurinha fácil na casa da sobrinha de Vicente de Carvalho. Eram os anos 1940, 1950. Passa um tempo e chega a hora da garota fazer parte desse agito e lá está ela carregando fios nos bastidores da polêmica peça Barrela, de Plínio Marcos, ou no coro do Madrigal Ars Viva durante a primeira apresentação de Beba Coca-Cola, feita por Gilberto Mendes a partir do poema de Décio Pignatari.

Fazia isso tudo enquanto participava da Juventude Estudantil Católica. E por fazer parte da liderança religiosa, ganhou o mundo cedo, na época de entrar na faculdade – depois se formaria em pedagogia pela PUC, língua e literatura francesa pela Universidade de Nancy e faria mestrado em sociologia.

Viu Che Guevara. Bateu longos papos com Fidel Castro. Tomou café da manhã com Gabriel García Márquez. Escondeu alguns militantes durante a ditadura, arrumou emprego para outros e passaporte falso para os que corriam mais risco. Foi interrogada, exilada. Na volta, com uma mochila nas costas e transitando por lugares remotos do País, ensinou camponeses, sindicalistas e presos a ler e escrever. Rodou o globo três vezes até sentar pouso em João Pessoa, onde vive hoje e onde escreve seus livros – sempre a partir do muito que viu e viveu, e por isso o contexto é importante.

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"Tenho certeza de que minha cabeça nasceu vazia. Portanto, tudo o que sai entrou pelos meus cinco sentidos. Lá dentro chacoalha tudo e a imaginação tenta juntar", conta a autora de Vasto Mundo, sua estreia, aos 60, na literatura, e de O Voo da Guará Vermelha, Modo de Apanhar Pássaros à Mão e Quarenta Dias, que sai gora, entre outros infantojuvenis. Em 2004, ela foi uma das vencedoras de concurso de contos promovido pelo Estado. (Leia o conto aqui.)

É importante dizer, sobretudo, que Maria Valéria é freira desde os 24 anos. Não porque foi obrigada ou porque ouviu algum chamado. "Era um tempo em que o mundo fazia a seguinte pergunta para as meninas: ‘Quer casar ou vai ser freira?’ A ideia de vida para a maioria era casar, ter um único emprego, viver na mesma cidade, criar um monte de filhinho. Depois de tanta aventura eu ia virar dona de casa? Não", comenta hoje, aos 72 anos.

Ingressou na Congregação Nossa Senhora – Cônegas de Santo Agostinho em 1965, um ano após o golpe militar. Nessa época, ela estava no Uruguai e conseguiu voltar para casa parando de paróquia em paróquia. "A perspectiva de entrar para uma congregação missionária tinha tudo a ver com a minha fé e, além disso, a vocação não é uma coisa só espiritual. Tem a ver com projeto de vida. É uma mistura de desejo, aptidão e, claro, fé." Ela lembra que era um tempo de entusiasmo com uma nova igreja de opção preferencial pelos pobres e comprometida com a revolução.

Com todo esse histórico, não é de se estranhar o que Maria Valéria fez durante o processo de escrita de Quarenta Dias, romance que acompanha Alice, uma mulher de cerca de 60 anos, viúva de um desaparecido político e professora de línguas que levava uma vida organizada em João Pessoa e se viu obrigada a abrir mão de tudo porque a filha, que morava no Sul, queria ter um filho e precisava da ajuda da mãe – assim, poderia continuar com as aulas na faculdade. A mãe, ela pensava, não tinha nada a perder. (Leia trecho aqui.)

Ao chegar a Porto Alegre, surta. Sai caminhando pela cidade que não conhece com a desculpa de procurar o filho da manicure de sua amiga que foi trabalhar em construção lá e nunca mais deu notícia. Segue as pistas que vão lhe dando, dorme em rodoviária, hospital, ao relento vez ou outra. Não tem vontade de voltar para a casa cujo endereço se esqueceu. Acostuma-se com a mendicância. Sua autopenitência dura 40 dias. E a ressurreição se dá por meio do diário que escreve na tentativa de entender como foi capaz de fazer algo tão radical, e que é o livro que lemos.

"Pelo fato de ser freira, recebo muita confidência. E fui me dando conta de toda uma problemática que estava surgindo para mulheres da minha geração, que foram para a rua trabalhar, criaram os filhos, deram um duro danado, adiaram uma porção de projetos e, de repente, quando chega a hora de aposentar, elas são convocadas para serem avós profissionais porque os filhos têm suas carreiras e nenhuma disposição de fazer sacrifícios", diz.

A história acontece nas melhores famílias, mas para checar se a trama era plausível, juntou milhas, pediu pouso na casa de irmãs de sua comunidade e foi a Porto Alegre. "Por 15 dias fiz basicamente o que Alice fez. Perguntei para todos onde eu poderia encontrar Cícero Araújo, que era invenção minha, e ia atrás dele. Voltava para casa à noite, mas cheguei a dormir em rodoviária, aeroporto e hospital, onde tinha abrigo, porque uma velhinha de 70 anos não pode abusar e eu não estava para fazer sacrifício da minha vida por causa de uma ideia de romance", brinca. "Nessas andanças, percebi que metade do mundo é feita de gente sumida e a outra metade está procurando quem sumiu – não apenas aqueles que foram para a rua, mas também os que não quiseram mais dar notícia", completa.

Outro fato que a aproximou da história que escreveu: há nove anos, acompanhou a faxineira até o hospital – o marido dela tinha sofrido um acidente. "Não havia um saguão para os familiares aguardarem notícias, mas as mulheres não se conformavam e ficavam no chão, esperando a noite toda. Resumindo: passei 48 horas para lá e para cá com aquelas mulheres, levando para tomar um banho ou para avisar o filho que o pai tinha sido baleado." Com isso, descobriu que entre uma fachada e outra havia um bequinho, e que se entrasse caía num outro mundo. "Voltei porque acabou a gasolina, mas senti porque tinha gente precisando de mim. E percebi que eu poderia fazer isso por 40 dias."

A estreia foi tardia, mas a literatura sempre acompanhou Maria Valéria – em casa e no trabalho. "Meu método de trabalho com os grupos populares, movimentos sindicais e luta pela moradia, pela água, por tudo, sempre foi a narrativa." E quando não encontrava histórias que interessassem a eles, ou se acabassem seus livros lá nos cafundós, escrevia uma. Hoje lê um pouco menos por causa de um olho cego que atrapalha o outro. Mas anda feliz da vida com seu leitor digital, em que dá para aumentar a letra.

"O Kindle é pior que carrinho de sorvete", diverte-se. E nesse clicar e baixar, já conta com mais de 10 mil volumes. "É evidente que vou precisar de mais umas quatro encarnações para ler tudo. Eu baixo todas as traduções que encontro. Tinha um tempo que era mais fácil, com um site pirata que tinha tudo o que você pudesse imaginar. Como eu não ia comprar mesmo o livro ou vender, eu não tinha problema de consciência. Tenho voto de pobreza."

Maria Valéria divide a casa com outras freiras mais velhas. Escreve quando dá e se diverte com o ofício. Acredita que sua literatura sirva para mostrar aos outros o que eles não conseguem ver por si só. "Acho que se justifica escrever literatura se for para fazer como Santo Agostinho aconselhava os catequistas. Ele dizia que o bom educador é quem vai mostrar para a cidade que ele muito ama um grande amigo que vai visitá-los pela primeira vez."

Ela tem três romances inacabados e a sinopse de mais uns 10. "É tudo fantasia porque tenho 72 anos, um infarto (na Flip, em 2006) e hipertensão grave. Não me iludo muito, mas nada me impede de imaginar. Ou a vida fica muito chata."

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