Mantras em mar de tranquilidade

Pavilhão da Nova Zelândia em Frankfurt ignora o burburinho da feira e aposta na cosmogonia

UBIRATAN BRASIL , ENVIADO ESPECIAL / FRANKFURT, O Estado de S.Paulo

12 Outubro 2012 | 03h09

É como um spa encravado no meio de um campo de batalha - enquanto lá fora mais de 7 mil exibidores correm apressados, negociando nervosamente direitos autorais, aqui dentro, no pavilhão da Nova Zelândia, há um irresistível desejo de se ficar na posição Flor de Lótus, uma das mais populares na ioga. Afinal, o país homenageado nesta edição da Feira de Frankfurt apostou na cosmogonia e nas suas tradições étnicas para apresentar sua cultura. Assim, se nos outros pavilhões impera o burburinho, beirando a gritaria, no da Nova Zelândia, a sensação é a de ouvir mantras sussurrados nos ouvidos.

A cada ano, o país homenageado pela feira é responsável pela ocupação de um enorme e exclusivo pavilhão, maior que qualquer editora possa sonhar, para revelar aspectos que tornam única a sua cultura. O risco de se errar é grande - em 2010, por exemplo, a Argentina, apesar de contar com notáveis representantes como Jorge Luis Borges e Julio Cortázar, misturou política e futebol à literatura, resultando num bolo de difícil digestão.

Os organizadores da Nova Zelândia foram prudentes - como se trata do país localizado mais à leste no planeta, instituiu-se que ali se concentra o horário mais avançado da Terra, ou seja, o primeiro raio de sol ilumina as férteis terras verdes da Nova Zelândia. Isso explica o simpático slogan adotado pelos organizadores neozelandeses para exprimir esse 'pioneirismo': "Enquanto você dormia".

"Ser o convidado de honra na Feira de Frankfurt é a oportunidade de promover o país, especialmente entre nações de língua alemã", comentou Kevin Chapman, presidente da Associação de Livreiros da Nova Zelândia. "Nosso tema está expresso em uma palavra da língua maori, Manaakitanga, que tem diferentes significados, como 'hospitalidade' e 'respeito'." Segundo ele, foi investido cerca de um milhão de euros na concepção e execução da ideia.

Experiência e mistério. O pavilhão foi todo cercado por enormes cortinas negras, reduzindo a luminosidade à penumbra. Logo ao entrar, o visitante se depara, no alto, com uma enorme reprodução da lua, e, no solo, com um lago onde, no centro, encontram-se grandes telões. A cada meia hora, todos são convidados a se acomodar entre as telas.

A primeira imagem que surge é a de um casal em discreta relação sexual - o ato resulta em uma explosão, significando a origem do universo. "Trata-se do momento da separação do céu com a terra", explica um homem, em trajes maori. "Triste, o céu começa a chorar, o que resulta na chuva." De fato, começa a chover no lago que circunda os telões, enquanto o homem entoa canções nativas.

Nascido o universo, as imagens mostram o cotidiano literário atual na Nova Zelândia: pessoas lendo livros em momentos prosaicos, como na escola, em um museu, ou mesmo em casa. Também são projetadas frases de autores locais, notadamente Katherine Mainsfield, a mais conhecida mundialmente. A última projeção é a de uma estante repleta de volumes. "Nosso espaço foi pensado para projetar a ideia de calma e tranquilidade", conta Kevin Chapman.

O pavilhão ainda é decorado com pequenas salas com obras sobre a Nova Zelândia e, ao fundo, de um espaço para debates. Cerca de 80 escritores virão à Alemanha até domingo para eventos que se espalham para fora dos limites da feira - cerca de 300 encontros estão programados para outras 50 cidades alemãs. Como o país é conhecido por ser o palco de filmagens da trilogia O Senhor dos Anéis e também do ainda inédito Hobbit, os organizadores planejaram cosplay aproveitando o tema.

Nas contas de Chapman, o resultado será positivo, pois até o final do ano cerca de cem títulos neozelandeses terão sido traduzidos para outras línguas, notadamente a alemã. A mesma quantidade deve se repetir em 2013. Tudo realizado segundo a tranquilidade da Nova Zelândia.

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