Mal-entendidos

Ser cronista é um pouco isso: permanecer num eterno momento de pavor ao constatar que você não vai mais localizar a sua mãe

Vanessa Barbara, O Estado de S. Paulo

17 Outubro 2016 | 03h00

Tem sempre aquele momento em que você é criança e descobre que pegou a mão de uma pessoa que não é a sua mãe. Passam-se alguns segundos eletrizantes entre o ato de ficar sem graça, decidir soltar a mão e tentar localizar a sua verdadeira progenitora, com cara de pânico.

Ser cronista é um pouco isso: permanecer num eterno momento de pavor ao constatar que você não vai mais localizar a sua mãe. Que o mundo está ali, hostil e aborrecido, e você vai ter de continuar pegando na mão dele e ficar sem graça e sair correndo, toda semana. 

Ser cronista é como estar andando e conversando com o seu melhor amigo e essa pessoa parar de repente para amarrar os sapatos, sem que você perceba. É começar a contar algumas coisas muito íntimas sendo que o amigo já não está mais do seu lado há, digamos, três quarteirões. Junto a você há um camarada de chapéu que ficou com pena e agora escuta as suas confidências – de vez em quando chacoalha a cabeça em um gesto de compreensão, e sabe-se lá há quanto tempo ele está ali e você não reparou. 

Um dia, meu amigo Alexandre estava num show olhando para o palco e pegou na mão da garota errada. E ficou assim nessa confusão “com as mãos dadas por ainda uns três segundos”, contou. “Foi um show de olhares estranhos. O da garota. O do namorado dela. O da minha namorada.” 

Esses três segundos são a crônica: no meu caso, 2.800 caracteres com espaços, durante os quais você não sabe se solta a mão ou se aproveita o show na companhia da mãe dos outros. 

Ainda não fiz essa experiência, mas sempre quis: você está andando de metrô com o seu consorte, no horário do rush, e de repente solta a mão dele. Quase que imediatamente, você encaixa a mão de outra pessoa ali: de um velhinho de 90 anos, digamos, e deixa que eles caminhem juntos por um tempo até que um dos dois perceba o mal-entendido. Essa sensação exasperante que se produz, vinda da vulnerabilidade de caminhar por um tempo na companhia de alguém que você nunca viu, é um incômodo obrigatório para qualquer cronista que se preze. 

É o constrangimento de quem atende ao telefone dizendo: “Alôncio!” porque tem certeza de que é o seu pai do outro lado da linha. E aí faz-se um silêncio e o interlocutor diz: “Boa tarde, aqui é o Fulano de Tal, da Empresa Muito Séria e Importante Com Uma Proposta Milionária de Trabalho. É a Vanessa que está falando?”

E você finge que entrou num túnel e caiu a linha. 

Tenho outro amigo que, numa conversa com um potencial cliente, confundiu-o consigo mesmo. Paulo foi mostrar a lista de produtos para um possível comprador e o chamou de Paulo; imediatamente pediu desculpas e se corrigiu dizendo o nome correto, que era algo bem diferente, tipo Rubens. O cliente lançou um olhar capcioso e comentou: “Porque Paulo é você, né?”. 

Esse já nasceu cronista.

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