Madrasternidade

Hoje, assisto a desenho, ajudo na lição, dou banho, busco na escola. Obrigada, miúda

Ruth Manus, O Estado de S.Paulo

18 Junho 2017 | 03h00

Eu ainda não sei o que é sentir o amor por um filho. Mas sei que nós, os sem filhos, passamos aos olhos alheios por “os grandes ignorantes do amor” enquanto não somos pais – o que não me parece nada justo, pois amor de verdade não se mede em escala. Não sei o que é amar como mãe, mas nos últimos anos venho aprendendo a amar como madrasta. Posso não conhecer o sabor do sorvete de chocolate, mas amo o sorvete de baunilha com todas as minhas forças. 

Na semana passada, a pequenina-já-não-tão-pequenina-assim completou seus 7 anos e no final de semana um incidente absolutamente banal me fez entender uma coisa muito grandiosa. É engraçado como parece que a vida tem uma certa mania de fazer isso – nos ensinar coisas grandes através de coisas pequenas – o problema é que a gente frequentemente não percebe.

Eu sempre gostei de comprar roupas sozinha, sem ouvir opinião ou avaliação alheia – e vai ver que é por isso que eu erro nas compras com frequência. Mas naquele domingo eu precisava comprar um maiô e a miúda estava comigo. Entramos na loja: madrasta, enteada, embalagem descartável com a metade do prato do almoço que ela queria levar no dia seguinte para a escola, bolsa pesada com carteira, chave, documentos, maquiagem e meia dúzia de brinquedos, garrafa de água, filtro solar e chapéu para encarar o verão, sacolas de compras pregressas.

Ela opinava no que eu devia e no que não devia provar. Acatei algumas regras, como o maiô branco bordado com dourado, e desobedeci a outras com jeitinho, como o maiô listrado com aplicação de uma melancia de paetê. Entramos no provador e o espaço era mínimo. Eu mal cabia sozinha. Mas éramos nós duas, acrescidas da bagagem que se leva nos ombros quando se anda com uma criança. A cada maiô que eu provava, fazia um contorcionismo elaborado para não bater o joelho na Francisca, nem o cotovelo na marmita. 

Para ser sincera, há poucas coisas no mundo que eu deteste tanto quanto comprar roupas de banho. Mas dessa vez foi diferente. Ela decidiu dar notas de 0 a 10. E enquanto eu me sentia absolutamente ridícula dentro da maioria dos modelos, ela não deu nenhuma nota inferior a 8. Era sempre 8 ou 9, independentemente de estar uma grande porcaria. Quando experimentei o último, os olhinhos dela brilharam e ela disse “é esse, Rú, esse é o 10”. Sorri e não tive dúvidas em obedecer à sabedoria dos 7 anos recém-celebrados.

Foram os 15 minutos mais desconfortáveis dentro de um provador que eu já vivi. A falta de espaço, o cheiro do bacon da carbonara que fugia pela embalagem plástica, as sacolas penduradas uma em cima da outra, a luz branca que evidenciava toda celulite. Mas foram, sim, os melhores 15 minutos que eu já vivi dentro de um provador, apesar de todo desconforto.

Foi então que eu me dei conta de que o amor deve mesmo ser isso: preferir a presença de quem se ama, mesmo quando ela te subtrai parte do conforto, parte da liberdade e parte do direito de escolha. O amor é uma balança óbvia: a vontade de estar ao lado de alguém sempre vence as pequenas perdas que a convivência traz.

Já não tenho minhas noites de sexta-feira, minhas tardes de domingo, nem minhas manhãs de quinta-feira como já tive: todas para mim, aguardando meus planos. Hoje, assisto a desenho, ajudo na lição de casa, dou banho, busco na escola. E quando me dou conta percebo que as supostas pequenas perdas, na verdade, tornaram-se grandes ganhos.

Assim, me dei conta de que naquele domingo eu não queria estar sozinha. Não queria ter escolhido sem opinião alheia. Não queria gastar alguns euros a menos. Sinceramente, não sei se o maiô é bonito, nem sei se vale o quanto paguei. Mas, sim, aquele, sem sombra de dúvida, é o melhor maiô que eu já tive. 

Obrigada, miúda, você é mesmo meu melhor sorvete de baunilha.

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