Luz e sombra no carnaval

Em mais uma peça embasada por Gilberto Freyre, Fofos em Cena examinam religiosidade

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

12 Outubro 2012 | 03h12

Dentro de cada fazenda de cana, havia um espaço, um terreno pequeno, no qual o dono do engenho não mandava. Ali, a plantação não chegava, nada podia ser construído. Era uma terra diferente, que não pertencia a um homem só. Onde os cortadores tinham pequenas roças, faziam seus cultos e rezas. Um território livre. Onde o senhorio, a tutela, era do sagrado.

Foi de posse desse dado histórico que o dramaturgo Newton Moreno e a Cia. Os Fofos Encenam criaram Terra de Santo. No espetáculo, que entra em cartaz amanhã no Sesc Belenzinho, o grupo prossegue em uma antiga pesquisa: incitada pela obra de Gilberto Freyre e o impacto da cultura açucareira no País. "São 500 anos de cana-de-açúcar. Ela surge no início da colonização e está aí até hoje, inclusive ganhando força", lembra Newton Moreno. "Foi a cana que nos formou, que nos criou. Ou destruiu."

De posse desse arcabouço, os Fofos conceberam, em 2009, Memória da Cana. A peça mesclava a obra de Freyre à de Nelson Rodrigues. Transportava para o canavial a trama de incestos e assassinatos de Álbum de Família. Mas detinha-se nos limites da casa-grande.

Agora, o olhar se desloca para a senzala (e seus equivalentes contemporâneos). Os protagonistas não são os senhores de engenho, mas seus escravos e empregados. "Queríamos continuar no universo da cana. Mas para onde olhar desta vez? Aí, surgiram essas questões da tradição, da fé, da religiosidade", explica Moreno, que, além de assinar a dramaturgia, divide a direção com Fernando Neves.

A peça está claramente divida em dois momentos. Um no presente, outro no passado. Um prosaico, o outro sacro.

A ação tem início em uma fazenda do interior de São Paulo. Território onde os migrantes nordestinos foram desvinculados da terra, onde as tradições religiosas permanecem vivas, mas achatadas. Como se a dimensão material da fé se avultasse diante do lado místico, nitidamente diminuído. Dentro do refeitório de uma usina, misturam-se católicos, evangélicos neopentecostais e adeptos de religiões afro-brasileiras. Uma guerra santa por vezes abafada, mas viva.

Durante a pesquisa para concepção do espetáculo, atores e diretores conviveram com cortadores de cana em duas cidades: Vicência, em Pernambuco, e Piracicaba, em São Paulo. Presenciaram conflitos reais. Viram terreiros de umbanda serem destruídos. Foram enredados em jogos de poder.

"Nesse mergulho, nosso encaminhamento foi místico, mas o resultado é absolutamente político", acredita o diretor Fernando Neves. A montagem captura o conflito de uma comunidade de cortadores, forçados a destruir um lugar sagrado. Devem ampliar o espaço de plantio do canavial. Antes, porém, será preciso convencer um grupo de mulheres, que afirma que a área é consagrada ao santo padroeiro.

O conceito de "terra de santo" surge como metáfora para questões que o grupo pretendia discutir. "Estamos sempre em busca de uma identidade que não sabemos ao certo qual é. Existe a cultura de que o velho deve ser superado, jogado fora. Onde é o lugar da preservação, onde a gente não vai destruir, plantar em cima?", questiona Neves.

Na montagem, a religiosidade desponta, portanto, como forma de afirmação e resistência. Lastro dos valores que subsistem. O segundo momento da peça abre um percurso pelos séculos passados. Breves histórias relembram as muitas etnias que estão no esteio da cultura patriarcal e açucareira. Um a um, vão sendo convocados os cantos, os instrumentos musicais e as linguagens dessas crenças.

Aparecem os negros, alijados de seus ritos. Os índios. Os judeus, que precisaram escamotear suas convicções para ter espaço no Nordeste brasileiro. Os cristãos: alguns devotos, outros hipócritas, nem sempre capazes de conciliar discurso e ação.

Em Terra de Santo, a fé - qualquer uma delas - não aparece só como luz, mas também como treva. É, a um só tempo, a força que não deve ser destruída, a sombra a ser evitada.

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