Olga Vlahou/Divulgação
Olga Vlahou/Divulgação

Lulina e seu insólito patchwork musical

Pernambucana, destaque da novíssima geração, lança na net Meus Dias 13

Olga Vlahou/Divulgação, O Estado de S.Paulo

20 Dezembro 2010 | 00h00

Durante o ano de 2010, todo dia 13 de cada mês, ela coletava frases dos amigos, fãs e desconhecidos no seu blog, por e-mail. Como na estratégia do cut up da literatura beatnik, colava, cortava, emendava e balanceava. O resultado é o disco inédito Meus Dias 13, um patchwork musical que a cantora Lulina começou a exibir aos ouvintes a partir da segunda-feira, 13, também na internet, no seu blog. Uma das músicas teve até 46 letristas.

Como Zagallo, Lulina já foi obcecada pelo número 13, mas diz que não é mais "viciada". Foi mais uma ideia do fazer coletivo que a moveu. A música é de Lulina e de sua "alma gêmea musical", Leo Monstro, que também canta e ajuda Lulina, 31 anos, a produzir seus discos caseiros desde que ela veio do Recife para viver em São Paulo, há 8 anos. A cantora se projetou em 2009 com Cristalina, compilação de composições que fez entre 2001 e 2006.

Você definiu como "vibe dadaísta" sua proposta de escrever letras coletivas, com participação de amigos e fãs na internet.

Inventei o projeto sem ter certeza se iria funcionar, mas bastou eu ler os primeiros e-mails para perceber que tinha algo muito bonito nas mãos: eu tinha o sentimento verdadeiro do dia das pessoas, algumas se abriam completamente comigo no e-mail, mesmo sem eu conhecê-las. O fato de ter que combinar tantas palavras e sentimentos muitas vezes contraditórios foi estimulante demais. Eu era obrigada a criar músicas maiores e bem mais complexas do que estava acostumada. Aos poucos fui pegando a manha, nas últimas eu conseguia compor em menos de meia hora, copiando, colando e criando novas associações quase que imediatamente. A ideia toda é dadaísta, mas eu não queria criar canções sem sentido, tentava agrupar as letras por sentimentos e gerar um novo sentido com a soma das partes. Foi como tirar férias de mim e refletir só sobre o que os outros viveram.

Qual foi o verso enviado no qual você se amarrou mais?

Foram tantos. Tinha gente que mandava um texto gigante, outros mandavam apenas uma frase. Eu lia um e-mail sobre uma menina que casou e na sequência outro sobre alguém que se separou. Tinha mês que mais de 5 pessoas falavam de gripe, era engraçado ver como o vírus estava se espalhando na cidade.

Você é ativa no Twitter. Acredita que há um câmbio de sensibilidades real na rede ou é só um lugar onde os acasos e as vaidades se encontram?

Acredito no câmbio de sensibilidades, mas também acredito nos acasos e vaidades, que são maioria. Mas passando uma peneira dá para tirar muita troca boa e enriquecedora da rede.

É um trabalho muito diverso. Os Dinossauros parece Au Revoir Simone; A Folia tem um batuque frevista; The Moustache é uma bossa metade em inglês, metade em português. Você definiria seu estilo como onívoro?

Onívoro é uma boa definição. Mas a diferença de estilos desse disco se explica justamente por eu não ter um plano de uma unidade final. Eu ia me deixando levar pelo clima que as frases de cada mês pediam. A diversidade também vem do fato de eu distribuir entre os meninos da banda a produção das músicas. No começo, eu compus algumas sozinhas e várias em parceria com Leo Monstro, meu tecladista e braço direito. Depois, tive a ajuda de Missionário José (baixista) e André Édipo (guitarrista) para produzir quase metade do disco. Daí a esquizofrenia sonora do álbum, que, por ter temáticas tão diversas e nenhum foco, nos permitia experimentar bastante nos arranjos.

"Passar o dia ouvindo Cat Power com as pupilas dilatadas." Sua poética é muito particular, tem um quê de ingênua, mas não tem nada de ingênua ao mesmo tempo. "Depois de uma noite de cão, eu vou jantar com a mãezinha do meu ex." Sarcasmo e a ironia são parte de sua natureza ou são incidentais?

Na hora de compor não me prendo a um personagem artístico. Gosto de transmitir o que sinto ou penso, sem me preocupar em ser mal interpretada. Tento não me ver como uma cantora que quer se mostrar assim ou assado e me permito agir musicalmente como uma pessoa normal, que varia de humor, de visão e de sentimentos com o passar do tempo, o que confunde o ouvinte na hora de me definir como um estilo. Os internautas me davam cacos de acontecimentos e eu só passava uma cola neles, às vezes sacana, às vezes poética.

Você fala de afta na boca, transforma minhocas em sábias conselheiras, flores em protagonistas, fala de ETs, bichos estranhos. De onde vem tudo isso?

Vem da minha vida, real e imaginária. Mas tudo faz mais sentido quando você fica sabendo dos reais eventos por trás de cada metáfora. As minhocas, por exemplo, são reflexões sobre a morte. Compus depois que perdi a minha vó, a quem eu era muito ligada.

Você tem um tanto de Wanderléa e de Martinha, mas também de Rita Lee. Teve ídolos? Você é caçula entre o povo do mangue beat, DJ Dolores, Jorge Du Peixe, Fred Zero Quatro. Essa geração pernambucana já é veterana. Como foi sua relação com eles?

Não tive muitos ídolos na música. Na adolescência gostava de Nirvana, Sepultura e Ramones. Só depois dos 20 e poucos comecei a conhecer a base do meu gosto musical atual, que tem muita coisa de indie, samba e MPB. Meus compositores preferidos são Lou Reed e Tom Zé. Já com relação ao mangue beat, eu não vivi tão de perto esse movimento. Ia de vez em quando a shows de Chico Science e Mundo Livre, mas costumava ficar mais em casa, era meio nerd. Nessa época, gostava de compor no meu quarto, ainda sem planos de mostrar isso algum dia para os outros.

Quando foi que você resolveu que podia fazer arte?

Desde criança eu gosto de compor, escrever e desenhar. Mas nunca encarei nada disso como arte. Fazia porque gostava, mas nunca me perguntei se podia fazer. Eu era muito tímida, mostrava para poucas pessoas tudo o que eu criava, principalmente as composições. Aprendi a tocar violão lendo revistas de cifras do Raul Seixas. Componho desde os 15, mas só depois dos 20 comecei a mostrar uma coisa ou outra aos amigos. Um deles, André Édipo, que é meu atual guitarrista, ainda nos tempos de Olinda resolveu me dar uma banda de presente, depois de saber o quanto eu curtia compor e tocar. Foi assim que começou, com amigos muito talentosos se juntando espontaneamente para tocar comigo. Nos primeiros shows, eu só subia ao palco depois de umas três latinhas de cerveja e sempre ficava tão nervosa que me sentia com febre. Escondia da minha família onde era o show, morria de vergonha de que me vissem no palco. Com o passar dos anos fui me sentindo mais à vontade. Antes era tenso, agora é a parte mais relaxante da minha rotina.

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