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Livro revê o movimento ecológico brasileiro

A jornalista especializada em ambiente Teresa Urban traça um interessante histórico do movimento ecológico brasileiro no livro Missão (quase) Impossível (Editora Fundação Peirópolis). O trabalho, apresentado pelo diretor da Agência Estado, Rodrigo Lara Mesquita, pode ser considerado um importante documento para desvendar a história - curiosamente pouco estudado pela historiografia - do sofrido movimento ambientalista brasileiro, que tem seus dois braços mais fortes em São Paulo e no Rio Grande do Sul. Personagens curiosos como o artista plástico espanhol Emílio Miguel Abellá, que promovia, em 1973, protestos contra a poluição desfilando por São Paulo com máscara contra gases estão presentes na narrativa. O ecologista gaúcho José Lutzemberger, que chegou a secretário de Meio Ambiente do governo Collor, e foi demitido por chamar o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) de "filial de madeireiras", também tem sua trajetória devassada pela autora, que dirigiu a sucursal do jornal O Estado de S. Paulo em Curitiba e se envolveu, na condição de técnica e militante, em uma dezena de projetos ambientais no sul do País. A autora não pretende contar somente a história dos ecologistas paulistas na sua obra, então podem ser observadas algumas omissões, entre elas a falta de menção a Vera Lúcia Braga, responsável pela elevação da Serra da Cantareira, o pulmão de São Paulo, à condição de reserva da biosfera. Ela liderou um abaixo-assinado com 150 mil nomes que fez com que o Banco Mundial não liberasse recursos pedidos pelo então prefeito Jânio Quadros para a construção das avenidas de fundo do vale, o que devastaria a reserva. Também não é citada a primeira passeata ecológica de que se tem notícia no Brasil, em 1973, dos trabalhadores da Companhia de Cimento Portland Perus em protesto contra a poluição causada pela fábrica. Da mesma forma, o livro também não conta a história do fundador do Horto Florestal, o sueco Alberto Lofgren, que em 1900 já protestava contra o uso abusivo de matas nativas pelas ferrovias. O trabalho relembra, porém, para ampliar o alcance da discussão sobre os problemas ambientais, a gênese de um dos maiores crimes ecológicos do Brasil, a destruição, em pleno regime militar, do Parque Nacional de Sete Quedas, criado em 1961. O poema de Carlos Drumond de Andrade, convertido à causa ambientalista, é emocionante. "Sete Quedas por nós passaram, e não soubemos, ah, não soubemos amá-las. E todas sete foram mortas. E todas sete somem no ar. Sete fantasmas, sete crimes dos vivos golpeando a vida, que nunca mais renascerá." Patrimônio ecológico cuja preservação estava a cargo do governo federal, sepultado sob a represa da Hidrelétrica de Iguaçu, dentro de uma visão megalomaníaca de "Brasil Grande", cara para o regime. A divulgação da luta dos ambientalistas contribuiu na opinião da autora, para fazer com que os temas ecológicos passassem a fazer parte do cotidiano das pessoas comuns. Missão (quase) Impossível, de Teresa Urban. Editora Fundação Peirópolis, 166 páginas, R$ 29,00.

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Agencia Estado ,

01 Junho 2001 | 16h08

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