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Livro reúne ensaios, entrevistas e debates do ex-ministro e intelectual Celso Furtado

JOTABÊ MEDEIROS - O Estado de S.Paulo

23 Julho 2012 | 03h 08

Volume relembra circunstância em que economista aceitou convite para o Ministério da Cultura

O economista Celso Furtado (1920-2004) escondia um grande segredo: por trás de sua proficiência em teoria econômica, havia um grande intelectual, um escritor, um contista, um historiador, um jornalista e um ensaísta pouco conhecidos. Essa faceta só se revelaria plenamente em fevereiro de 1986, quando aceitou o convite do então presidente José Sarney para assumir o Ministério da Cultura - então uma estrutura precária, sem projeção, sem respaldo das políticas de Estado.

"O País saía de um túnel ansioso por respirar a plenos pulmões", disse Furtado, sabendo da circunstância histórica em que assumia sua função. Seu nome já tinha sido levantado, um ano antes, por um manifesto de intelectuais (ainda se respeitava a opinião dos intelectuais) que incluía Fernanda Montenegro, Oscar Niemeyer, Antonio Cândido, Gilda de Mello e Souza, Antonio Houaiss, Chico Buarque, Tom Jobim, entre dezenas de outros.

Mas havia também críticas. "O que um economista pode fazer pela cultura?". Ressoava ainda a questão brutalista usual: "Num país que passa fome, é necessário um Ministério da Cultura?", perguntavam-lhe repórteres.

Passados 26 anos, a passagem de Celso Furtado pelos domínios da ação cultural é objeto da reflexão de um volume precioso para quem analisa o tema. Ensaios sobre Cultura e o Ministério da Cultura (Editora Contraponto), organizado por Rosa Freire d'Aguiar Furtado, a viúva do economista, que relembra da circunstância em que Furtado aceitou o convite. "Depois de muitos anos em Paris, vivíamos em Bruxelas, onde Celso chefiava a missão diplomática brasileira junto à Comunidade Econômica Europeia".

Ele ficou no cargo por três anos, entre 1986 e 1988, e deixou um legado duplo. O primeiro: ele foi o responsável pela elaboração da Lei Sarney, um mecanismo de incentivo fiscal que soçobrou após centenas de denúncias de desvios de finalidade. Mas seu esforço de compreensão sobre a cultura brasileira deflagrou um processo que ainda está em curso - uma antevisão daquilo que o ministro Gil chamaria de "do-in antropológico": microações contínuas, como estímulo às bandas de música, custeio de livros para edições internacionais, reedição de partituras. "Por todo o País, persistem frutos positivos da passagem de Celso Furtado na pasta da Cultura", assinala Ângelo Oswaldo, ex-chefe de gabinete de Furtado e hoje prefeito de Ouro Preto.

Foi o primeiro a sistematizar as informações sobre a área, encomendando à Fundação João Pinheiro um diagnóstico da cultura no País. "O objetivo último de uma política cultural deve ser liberar todas as formas criativas da sociedade. Jamais colocá-las sob tutela, mas garantir-lhes espaços para que elas possam desabrochar. A criatividade sendo a um só tempo um processo de ruptura e um processo que se alimenta de raízes do passado; é preciso garantir os espaços para atividades de vanguarda e contestação como se preocupar com a defesa do patrimônio acumulado", disse.

Suas ideias destoavam do rame-rame, fugiam da análise rasa. Dizia que o Prêmio Nobel premiava, em geral, profissionais de "terceira categoria". Admitia que uma sessão de candomblé podia ser mais significativa culturalmente do que muitas outras atividades. "Se considerarmos a cultura no seu sentido mais profundo, vamos perceber que ela é mais importante para os pobres do que para as classes privilegiadas. Uma festa popular, por exemplo, tem possivelmente mais significado para aqueles que dela participam do que um grande espetáculo de ópera para uma pessoa de classe média que vai ao teatro quase por rotina".