Livro de Felipe Pena explora seus impasses de ficcionista

VINICIUS JATOBÁ

VINICIUS JATOBÁ É CRÍTICO LITERÁRIO, O Estado de S.Paulo

12 Novembro 2011 | 03h09

C om a publicação de O Verso do Cartão de Embarque, Felipe Pena se firma como um escritor peculiar no cenário da literatura brasileira contemporânea. De um lado, é um dos poucos autores que encara a edição sucessiva de livros, ainda que díspares entre si, como a edificação de um projeto coerente. Ter projeto literário hoje é algo ridicularizado, e é notável esbarrar com um escritor que ambiciona provocar um debate com o conjunto de seu trabalho. Por outro, Felipe Pena investe em uma clara tentativa de estabelecer uma narrativa de entretenimento de qualidade, e tanto sua versatilidade de técnicas e de registros como seu excesso de imaginação o colocam em posição privilegiada para cumprir esse objetivo. Ainda assim, é preciso que se diga: há um porém.

Em O Verso, Antonio Pastoriza, personagem-chave de todos os romances de Pena - que compõem a Trilogia do Câmpus, que inclui ainda Fábrica de Diplomas (2011) e O Marido Perfeito Mora ao Lado (2010) -, está desaparecido, ou foragido, e duas leitoras de sua última e bela crônica, que dá título ao livro, se lançam ao desafio de descobrir seu paradeiro e investigar o que outras pessoas sabem dele. O livro é conduzido, em meio a descrições do narrador de uma patética burocracia acadêmica, por relatos desencontrados da vida de Pastoriza por colegas de trabalho. O problema do livro torna-se logo evidente: quando um escritor percebe que tem a capacidade de fazer tudo o que deseja tecnicamente, ele corre o risco de ser mais de um ao mesmo tempo - e é isso o que acontece com O Verso do Cartão de Embarque. Chega um momento em que o romance é sobre a notável técnica de Pena, as engenhosas citações de outras obras que ele engendra, e a criativa linguagem usada no livro. E tanto Pastoriza quanto o amor de suas duas leitoras são sequestrados e subtraídos pelo imenso talento do autor.

Esse impasse, comum a todos os romances de Pena, é mais geral do que se pensa. Como ser escritor de entretenimento no Brasil é não existir para a comunidade literária, poucos autores com talento para livros ágeis e engenhosos conseguem encontrar um balanço entre aquilo que suas histórias suportam e precisam e aquilo que o meio literário autoriza, de forma pouco velada, como qualidade. O Verso do Cartão de Embarque é um romance cujo texto dramatiza esse impasse. As personagens são interessantes e há um senso de humor ferino que torna a vida universitária uma espécie bizarra de circo mambembe. Contudo, o narrador faz o leitor perceber, seja por elipses ou mudanças bruscas de estilo e de linguagem, que aquela não é uma simples narrativa de amor quando - é bem possível - ser uma simples história de amor bastaria para tornar a leitura de O Verso uma experiência mais intensa. Há certos momentos que menos é mais, e os livros de Pena ganhariam em vigor emocional se investissem mais na clareza do enredo e contorno das personagens.

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