Lições de cidadania

Ator lê carta sobre a posição da classe artística em relação a Pinheirinho

LUIZ CARLOS MERTEN , TIRADENTES, O Estado de S.Paulo

27 Janeiro 2012 | 03h09

Marat Descartes talvez seja a grande revelação recente do cinema de São Paulo. De Os Inquilinos, de Sergio Bianchi, a Corpo Presente, de Marcelo Toledo e Paolo Gregori - exibido ontem na Mostra Aurora -, passando por Trabalhar Cansa, de Marco Dutra e Juliana Rojas, e 2 Coelhos, de Afonso Poyart -, ele não cessa de surpreender com sua capacidade de se reinventar, nos mais diversos personagens. Marat superou-se ontem, e interpretando o cidadão Descartes. Antes da sessão do longa, ele leu uma carta de Juliana Rojas representando a posição da classe artística sobre os recentes acontecimentos em Pinheirinho, no interior de São Paulo. Disse esperar que as pessoas não tenham perdido sua capacidade de se indignar. Sinalizou para o celular como ferramenta - que já ocasionou uma revolução no mundo árabe, agora é o repórter falando - para divulgar o que ocorre, em escala mundial. O público aplaudiu de pé.

A cidadania é um conceito muito forte em Tiradentes, onde ela se faz presente todo dia, na mostra, por meio de oficinas e discussões. O clima era ruidoso no início da sessão. A atriz Raissa Gregori, mulher de Paolo, contribuiu ao dedicar o filme aos bebês que nasceram ou ainda vão nascer (o dela, que está grávida) durante a produção. Tudo muito legal, mas Corpo Presente não correspondeu, ou correspondeu só em parte. O filme é sobre personagens marginais de São Paulo - um punk que veste terno e gravata para ser agente funerário, uma dublê de operária e dançarina, outra de manicure, dançarina e garota de programa, etc. As histórias de todos se cruzam no que não deixa de ser uma homenagem, ou releitura?, do cinema marginal.

Corpo Presente é cheio de referências. Só que é um filme marginal que parece fazer força para se ajustar às regras de uma narrativa mais tradicional, e talvez até convencional. Existem coisas boas, mas o xis é o conceito, algo que parece estar ocorrendo na Mostra Aurora como um todo. Os filmes estão ficando mais bem produzidos, o próprio As Horas Vulgares, de Rodrigo de Oliveira e Vitor Graize, o melhor até agora. Isso não deixa de causar estranhamento numa mostra de novos diretores que surgiu com fama e vocação de alternativa.

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