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Levada ao limite - Entrevista com Juliette Binoche

Atriz fala como foi fazer 'Camille Claudel 1915' e 'De Coração Aberto', que estreia hoje

Luiz Carlos Merten, enviado especial / Berlim, O Estado de S.Paulo

15 Fevereiro 2013 | 02h10

Após experiências transcendentais em filmes de grandes autores como Krysztof Kieslowski e Abbas Kiarostami, o que mais Juliette Binoche poderia querer para ser, como diz, levada ao limite? Trabalhar com Bruno Dumont. Foi assim que começou a parceria que culminou em Camille Claudel 1915. Juliette conta que aceitou tudo pelo privilégio de ser dirigida por Dumont. Nada de roteiro, maquiagem, um salário abaixo do que ganha habitualmente. A personagem veio depois - Camille Claudel, num momento decisivo de sua internação no asilo de doentes mentais. Um filme radical.

Não está descartada a possibilidade de um Urso de Prata de interpretação, por mais que a torcida seja pela chilena Paulina Garcia, de Gloria. Juliette também fala de De Coração Aberto, de Marion Laine, que estreia hoje no Brasil. "Foi forte, gostei de ter feito."

Como surgiu seu desejo de trabalhar com Bruno Dumont?

JULIETTE BINOCHE - Surgiu da minha admiração pelo cinema dele. É autor rigoroso. Você pode ter certeza de que vai viver uma experiência visceral. Ofereci-me para fazer não importa que papel. Ele me veio com a proposta de Camille Claudel, num momento específico de sua vida. Ela tinha a mesma idade que eu, estava confinada no asilo. Sempre fui muito atraída por Camille. Topei todas as suas condições (de Bruno) e, em contrapartida, fiz apenas uma - queria uma instrutora de elenco, para me assegurar de que poderia entrar e sair da personagem e não enlouqueceria como Camille.

Como foi trabalhar com verdadeiros alienados mentais?

JULIETTE BINOCHE - Em sua correspondência, Camille não fala em outra coisa que não o horror da vida no asilo, com todas aquelas mulheres. Seus gritos, expressões, a feiura. Foi muito intensa. Elas não conseguem representar, não são outra coisa que não elas mesmas. Mas a presença da câmera as excitou de um modo como não imaginava que fosse ocorrer. A troca foi muito forte. E eu me perguntava o tempo todo - até onde conseguiremos ir?

Pois foram até esse extraordinário plano final, totalmente aberto, em que Camille não diz nem faz nada, mas o espectador consegue ler tudo em seu rosto. Como foi?

JULIETTE BINOCHE - O plano foi feito bem no final. Bruno me disse apenas que fosse neutra. Mas aí ele me pediu que desse um sorriso. Acho que faz toda a diferença e toca o tema da ascese, que é tão importante em seus filmes.

De certa maneira, Camille Claudel é a sua Joana D'Arc e Bruno Dumont, o seu Carl Theodor Dreyer. Todos esses closes. O que pensa disso?

JULIETTE BINOCHE - Que Falconeti, a Joana D'Arc de Dreyer, enlouqueceu no fim da filmagem e eu não queria passar por isso. Não diria que Dreyer tenha sido uma referência consciente para Bruno Dumont, mas sim, existem similaridades. Não há outras formas de radiografar a alma no cinema senão indo fundo na entrega. Um filme como esse esvazia o ator.

E como foi abandonar a personagem?

JULIETTE BINOCHE - O tema do filme é o abandono de Camille, a sua pavorosa solidão no asilo e a desilusão com o irmão, por quem se sentia traída, mas Paul Claudel também sempre se sentiu traído por ela. É curioso como Bruno mostra Camille perfeitamente normal, mas quando chega o irmão ele a desestabiliza e ela fica louca. O tema da repressão do catolicismo é decisivo, senão não seria um filme de Bruno. O que me salvou foi o seguinte. Estava representando Senhorita Julia (de Strindberg), num tour pela França, e tive uns dias de descanso. Estava perto da casa da família Claudel. Não consigo dizer como, mas foi só depois de visitar a casa e, de certa forma, realizar o sonho de Camille de voltar, que consegui me desligar dela. Com o desprendimento que a própria Camille revela no filme, no final.

Você tem tido todos estes encontros com grandes diretores. Imagino que seja uma via de mão dupla. Você lhes dá muito, com sua entrega, mas eles também lhe dão muito. Ou não?

JULIETTE BINOCHE - Kieslowski, Kiarostami, Bruno, David (Cronenberg). Todos são gênios, têm uma visão de mundo, arte, mas são generosos. É muito fácil trabalhar com gênios. Trabalhei com diretores de muito menos talento, ou inseguros, e foram muito mais difíceis. Com toda a exigência do papel, nunca me senti agredida por Bruno. Estávamos ambos empenhados em pôr na tela a ascese de Camille.

Você viu o filme antigo, com Isabelle Adjani?

JULIETTE BINOCHE - Vi na época do lançamento, mas era uma história muito diferente da nossa, centrada na relação de Camille com (Auguste) Rodin, em sua fase mais criativa. Nossa Camille está impossibilitada de criar. Não tem nem mesmo os meios físicos de fazê-lo. E está abandonada. Começa privada de tudo, da palavra, e a evolução do filme passa pelo seu choque verbal com o irmão, que a internou. Ele também é louco. Foi talvez a cena mais difícil de fazer.

O que diria de De Coração Aberto, que estreia hoje no Brasil?

JULIETTE BINOCHE - Foi muito curioso, todas as possibilidades na relação de um casal, a instabilidade criada pela chegada da criança. O curioso é que a diretora queria Carlos Ramirez no papel, e foi ele quem me sugeriu. Marion mudou o roteiro por isso. No original, a mulher era a imigrante e ela buscava uma atriz espanhola. A parte mais difícil envolveu a cirurgia do coração. Tive de assistir a duas e foi barra pesada. Mas a vida de um ator é assim. A personagem vive através da gente e você precisa estar aberta para viabilizar suas experiências.

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